Novos caminhos de Marcelo D2

Prestes a estrear como diretor no longa 'Amar É para os Fortes', rapper revela referências a clássicos

Rio de Janeiro. O olhar do roteirista e diretor estreante Marcelo D2 em ?Amar É para os Fortes?, com lançamento previsto para agosto, carrega as marcas de sua formação. Os sons garimpados nas barraquinhas de vinis nas ruas 13 de Maio e Pedro Lessa, o hip-hop na Lapa, os shows de rock no Garage, o skate por todo o lugar... Esse circuito é facilmente identificável em seu trabalho ? o rap com sotaque de rua e de Rio de Janeiro que ele forjou inicialmente no Planet Hemp e que, depois, desenvolveu em sua carreira solo. Mas há um ponto nesse mapa afetivo da cidade que, apesar das pistas espalhadas pelas letras aqui e ali, passa batido e se revela de maneira mais evidente agora: o Estação Botafogo.

?Ia direto pra lá. O cinema foi uma grande escola. Descobri Jarmusch, Kubrick, Spike Lee... ?Faça a Coisa Certa? mudou minha vida, aquilo era muito rap. Vi ?Sid and Nancy? lá com neguinho dando mosh. Até tentei entrar em Bergman, esse lance mais angustiado, mas não era a minha. Sou fruto da cultura pop, ela foi minha salvação?, conta D2.

O rapper conversa na sala de sua casa, com estantes ocupadas por peças de toy art e livros de cinema e street art, que testemunham seu interesse pela imagem ? assim como as fotografias, gravuras e pinturas que tomam conta das paredes. Todas essas referências afetam indiretamente as escolhas estéticas de D2 em ?Amar É para os Fortes? ? filme que contará uma história, mas também será um ?álbum visual?, com 14 canções inéditas e participação de artistas como Gilberto Gil, Marisa Monte, Alice Caymmi e Rincon Sapiência. O longa é uma clássica história de superação pela arte, encarnada na saga do garoto Sinistro (vivido por seu filho Stephan Peixoto). É um enredo que D2 define como ?quase autobiográfico?. ?Tem um diálogo que sintetiza esse dilema de nascer numa cidade violenta e achar que pode mudar pela arte?, nota D2.

Porém, é de sua formação cinéfila que ele arranca sua inspiração de maneira mais clara. ?Se quero fazer um filme de hip-hop, por que não samplear imagens? Então, pus referências a filmes como ?Kids?, naquela cena de porradaria na praça. Meu filme abre com uma cena que remete a ?Wild Style?, com dois rappers rimando sentados numa escada. Tem ?La Haine?, ?Poderoso Chefão?, ?Cidade de Deus?... Tem uma hora do filme em que aparece uma televisão passando ?Febre do Rato?, de Cláudio Assis, enquanto rola uma música que fiz também chamada ?Febre do Rato?. Pensei ainda em citar Tarantino, mas achei que aquele sangue todo não ia ser legal?, brinca.

Urbano. Seu recorte visual pop passa também pelo cinema de Spike Jonze. ?Skate tem muito cinema, ele veio daí?, diz D2, referindo-se aos filmes do diretor sobre o tema. Passa também pela fotografia de Martha Cooper.

?Busco esse visual urbano, concreto, da obra dela. É um filme num Rio de Janeiro que não tem praia. De Spike Jonze peguei a coisa de seguir uma narrativa não tão linear ou careta, na linha de ?Adaptação? e de ?Quero Ser John Malkovich?. De Spike Lee tem o uso da linguagem contemporânea do hip-hop, o personagem frágil, representante da minoria. De Werner Herzog, com quem fiz uma masterclass, peguei a ideia de que não tem esse lance de cadeirinha de diretor: ?Você vai ficar sentado enquanto alguém vai lá fazer seu filme???, argumenta o rapper.