Munição especial indica 'DNA de milícia' na morte de Marielle

Um dos projéteis recolhidos é do mesmo lote de balas usadas em outros dois crimes

RIO DE JANEIRO. O uso de pelo menos um projétil especial na morte de Marielle e Anderson reforça a suspeita de que, nas palavras de um investigador, ?há DNA de um grupo paramilitar no crime?. Além disso, ele vê a possibilidade de existir um elo entre o duplo homicídio no Estácio e cinco assassinatos praticados em Niterói e São Gonçalo.



Policiais civis e federais que investigam a morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Pedro Gomes conseguiram colher digitais parciais do assassino ou da pessoa responsável por municiar a pistola 9mm usada no crime, ocorrido no último dia 14. Elas estavam em cápsulas encontradas por peritos na esquina das ruas João Paulo I e Joaquim Palhares, no Estácio, onde aconteceu o ataque ao carro das vítimas.



Especialistas examinaram nove cápsulas, sendo oito do lote UZZ 18, vendido pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) em dezembro de 2006 para o Departamento da Polícia Federal em Brasília e distribuído para todo o país. Um único projétil faz parte de um carregamento importado, e, de acordo com investigadores, tem características especiais, semelhantes à de uma outra cápsula de um homicídio que aconteceu fora da capital, na Região Metropolitana do Estado.



As digitais encontradas nas cápsulas, segundo um perito, ?estão fragmentadas?. Isso significa que, num primeiro momento, não podem ser comparadas com as armazenadas no banco de dados das polícias Civil do Rio e Federal. Porém, segundo policiais que atuam no caso, é possível confrontá-las com as de um eventual suspeito.



?Elas são microscópicas, fragmentadas. Mas estamos fazendo todo o esforço possível?, afirmou um policial que participa da investigação.



Nos últimos três anos, o Estado do Rio registrou 14.574 homicídios dolosos. Foram 4.200 em 2015, 5.042 em 2016 e 5.332 em 2017. Mas, segundo a Divisão de Homicídios da Polícia Civil, em apenas três ações, que resultaram em cinco mortes, foi detectado o uso de munição do lote UZZ 18 ? que tinha 1,859 milhão de balas ? em território fluminense. 



Esses casos ocorreram no bairro do Pacheco, no município de São Gonçalo; em Itaipu, na cidade de Niterói; e na localidade de Estância de Pendotiba, na divisa entre os dois municípios.



Audiência. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) decidiu realizar uma audiência pública especial sobre o assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes, ocorrido em 14 de março. O debate ocorrerá entre 3 e 11 de maio na República Dominicana.



?Operações não vão resolver?



A pesquisadora mexicana Laura Atuesta, coordenadora do Programa de Política de Drogas do Centro de Investigação e Docência Econômica, afirmou que o primeiro passo para combater as milícias é entender sua fonte de receita financeira. 



Para ela, essa é uma maneira muito mais eficaz de desmantelá-las do que deflagrar operações. A afirmação foi dada após evento da Anistia Internacional e pelo Laboratório de Análise da Violência da Uerj, no Casarão Ameno Rosedá.



?A mim, parece que um ataque frontal não é solução. Um ataque frontal gera ainda mais violência. O que tem que entender é qual o negócio da milícia: se é venda de drogas, armas, controle territorial?, disse.