Um filme menor de Eastwood

Longa acompanha jornada de três amigos até se verem diante de um acontecimento


SÃO PAULO. Clint Eastwood costuma construir seus filmes em torno de um personagem forte. Ele pode ser caubói ou aposentado, o filme pode ser maior ou menor, tanto faz: a construção sempre começa por aí; ela que arrasta a trama.



Isso é que torna ?15h17 ? Trem para Paris? ao mesmo tempo estranho e fascinante para quem acompanha a obra do cineasta. Como contar uma história em que os três personagens centrais são perfeitos fracassados?



Spencer, Alek e Anthony são amigos de infância unidos pela frustração escolar, três jovens destinados a se tornarem incapazes de qualquer compreensão mais ampla do mundo. Três boçais, em suma, ou ?losers?, como chamam os norte-americanos.



Já adultos, dois deles entram para as Forças Armadas. Spencer vai para a Aeronáutica, mas não consegue se firmar numa exigente unidade de salvamento; Alek entra para o Exército e serve no Afeganistão. Numa licença, os dois, mais Anthony, reencontram-se na Europa.



Clint Eastwood nos conduz então a uma viagem turística mais que típica: dentro de um museu não conseguem perceber basicamente nada. Na Alemanha, acreditam que Hitler se matou para evitar o contato com as tropas norte-americanas. De Veneza não captam senão o que lhes mostra os selfies que um deles tira com insistência.



Resumindo, eles se tornam adultos tão simpaticamente bobos quanto eram na escola. E a rigor viram adultos incapazes de sustentar um filme de Clint Eastwood ? que, por uma vez, trabalha a partir de seres profundamente desinteressantes.



Eis o que torna o filme fascinante: é o desafio de construí-lo em torno de caras tão satisfeitos com a própria mediocridade. Clint precisa abandonar a ideia de personagem forte para narrar sua trajetória. Isso pode ser árduo. Tem-se a sensação de que a qualquer instante o filme afundará no nada.



Mas eis que algo mudará e a oportunidade para que se tornem heróis surgirá. Por quê? Não se sabe. É como se Clint nos dissesse que a vida é puro mistério. Eles mereceram ser chamados a algo especial? ?Merecer não tem nada a ver com isso?, dizia a certa altura o protagonista de ?Os Imperdoáveis?.



Esse viés ? a vida como puro acaso, feita de ironias, de coisas que não controlamos ? foi não raro sugerido ao longo da obra de Clint Eastwood, mas nunca desenvolvido tão explicitamente.



Eis o que faz do longa um acontecimento paradoxal: anuncia uma transformação relevante no trabalho do grande diretor, que agora mergulha no lado obscuro da América para ali encontrar a poesia dos fracassados.



A viagem de trem, seja dito de passagem, propiciará aos rapazes, na vida real, um ato de heroísmo, em 2015, de que decorrerão uma condecoração concedida por François Hollande, então presidente francês, e um desfile em carro aberto pelas ruas de Sacramento, Califórnia, onde nasceram e cresceram.



Ironias do destino: o heroísmo dos boçais saudado por um presidente francês medíocre e depois pelos caipiras de sua cidade. ?Trem para Paris? é um filme estranho: filme menor de Clint Eastwood, mas não insignificante. (Inácio Araújo)