Série da Netflix gera embate

Ex-presidente Dilma Rousseff acusa produção de disseminar notícias falsas; diretor José Padilha rebate críticas

São Paulo. A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) acusou o cineasta José Padilha de distorcer a realidade, agir de má fé e criar notícias falsas na série ?O Mecanismo?, produção da Netflix que estreou na última sexta-feira. Dilma publicou uma nota em seu site para se defender do que chamou de ?propagação de mentiras de toda sorte? da trama, cujos escândalos da operação Lava Jato são a principal fonte de inspiração. O embate levou movimentos de esquerda a pedir que os usuários do serviço de streaming cancelassem suas assinaturas.

?O cineasta não usa a liberdade artística para recriar um episódio da história nacional. Ele mente, distorce e falseia. Isso é mais do que desonestidade intelectual. É próprio de um pusilânime a serviço de uma versão que teme a verdade?, acusa a ex-presidente em nota. Ela acrescenta que, ao produzir ficção sem avisar a opinião pública, a série tenta dissimular, inventa passagens da história e distorce fatos reais ?ao seu bel prazer?.

?O diretor inventa fatos. Não reproduz fake news. Ele próprio tornou-se um criador de notícias falsas?, afirma Dilma sobre Padilha, que também dirigiu ?Tropa de Elite?, uma das maiores bilheterias do cinema nacional.

Entre as distorções cometidas na produção, Dilma diz que a série atribui ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a frase sobre ?estancar a sangria?, dita, na realidade, pelo senador Romero Jucá, hoje presidente do MDB, numa conversa gravada pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado em que o emedebista sugere um pacto para conter as investigações da Lava Jato.

A ex-presidente, diferentemente do que apresenta a série, nega ainda que fosse próxima do ex-diretor da Petrobras e delator da Lava Jato, Paulo Roberto da Costa, assim como afirma que o doleiro Alberto Youssef ?jamais? participou de sua campanha de reeleição ou esteve na sede do comitê, como, segundo ela, mostra a série no primeiro capítulo.

Alerta. Na segunda-feira (26), durante entrevista coletiva no Rio de Janeiro, Dilma afirmou que a Netflix está sendo usada para fazer campanha política ao disponibilizar a série ?O Mecanismo?. Ela declarou que pretende alertar lideranças políticas de outros países sobre o caso.

?Netflix não pode fazer campanha política. Vou falar para as lideranças políticas que eu encontrar: ?Se está fazendo aqui, fará em seu país?. Acho importante que a gestão da Netflix saiba. A direção da Netflix não sabe onde está se metendo?, afirmou Dilma.

Twitter

Repercussão. A série ?O Mecanismo? estava, até a noite de segunda-feira, na lista de assuntos mais comentados do Twitter no Brasil.


 



?Não espalhamos fake news?



Criador da série ?O Mecanismo?, José Padilha disse que não dirigiu nem roteirizou especificamente o episódio em que a frase ?estancar a sangria? foi dita, embora tenha checado os diálogos. Ele defende-se dizendo que ?Jucá não é dono dessa expressão? e que, portanto, roteiristas estão livres para usá-la.

??O Mecanismo? é uma obra-comentário. Na abertura de cada capítulo está escrito que os fatos estão dramatizados, se a Dilma (Rousseff) soubesse ler, não estaríamos com esse problema?, diz Padilha.

Em entrevista ao jornal ?O Globo?, o cineasta afirmou que não acredita que a série tenha espalhado fake news, como alegou a ex-presidente da República. ?Não creio que espalhamos notícias falsas. Ou será que a corrupção gigante que PT, PMDB e PSDB operam no país são fake news??, questionou.

Padilha também comentou sobre a repercussão que a série da Netflix, inspirada na operação Lava Jato, ganhou desde a estreia.

Sobre a iniciativa de movimentos de esquerda, que iniciaram uma campanha nas redes sociais para que usuários cancelassem suas assinaturas do serviço de streaming, o cineasta classificou de ?patética?. ?Acho patético! Vão perder a quarta temporada de ?Narcos?!?, ironizou ele, referindo-se à outra série que produziu para a Netflix. (Da redação)


 



Plataforma é banida do Festival de Cannes



Rio de Janeiro. O diretor do Festival de Cannes, Thierry Fremaux, informou à revista ?Le Film Français?, na última sexta-feira, que serviços de streaming que veiculam vídeos sob demanda via banda larga, como a Netflix, ficarão fora da competição pela Palma de Ouro deste ano. A decisão foi provocada pelo fato de a Netflix insistir em não lançar suas produções nos cinemas. Segundo Fremaux, as produtoras de streaming poderão, no entanto, exibir filmes fora da competição oficial, que acontecerá entre os dias 8 e 19 de maio.

?No ano passado, quando selecionamos dois de seus filmes, achei que poderia convencer a Netflix a lançá-los nos cinemas. Eu fui presunçoso: eles se recusaram?, disse Fremaux à ?Le Film Français?. ?As pessoas da Netflix adoraram o tapete vermelho e gostariam de nos mostrar mais filmes. Mas eles entenderam que sua intransigência em relação ao modelo (de negócios) colide com a nossa?, acrescentou.

Dois filmes da Netflix foram exibidos em Cannes no ano passado ? ?Okja?, de Bong Joon-ho, e ?Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe?, de Noah Baumbach. A participação das duas produções teria causado ?enorme controvérsia ao redor do mundo?, segundo Fremaux.













FOTO: Evaristo Sá/AFP ? 31.8.2016

dilma


?Sobre mim, o diretor de cinema usa as mesmas tintas de parte da imprensa brasileira para praticar assassinato de reputações, vertendo mentiras na série de TV.?

Dilma Rousseff

ex-presidente da República














FOTO: Kevin Winter/AFP ? 10.2.2014

josé padilha


?A série mostra como PT e PMDB montaram um enorme esquema de corrupção de lavagem de dinheiro. Um esquema que lesou os brasileiros, com a participação clara de Lula e de Temer. E a esquerda quer polemizar o uso do termo ?estancar a sangria???

José Padilha

diretor e cineasta