Avanço dos casos de gripe é alerta para festas de fim de ano

A boa notícia é que os cuidados contra a Covid-19, como o uso de máscara, também ajudam no combate ao vírus influenza

Em meio à pandemia de Covid-19, temos agora mais uma doença em risco de ganhar proporções importantes: a gripe. O país registra surtos da doença, causada pelo vírus influenza, em diversos estados, e especialistas já classificam o atual cenário como epidemia. A semelhança entre os sintomas da gripe e os da Covid-19, como dificuldades respiratórias e dores pelo corpo, complica ainda mais o quadro na hora de diagnosticar. E apesar de as festas públicas, em boa parte do país, terem sido (acertadamente) canceladas, estamos às vésperas das festas de fim de ano, com as prováveis aglomerações – seja em reuniões de família ou em comemorações privadas que reúnam números expressivos de pessoas.

Em São Paulo, o governo municipal já começou a fazer testes rápidos nos pacientes que procurarem a rede de saúde com sintomas de gripe. A pasta da Saúde registrou, na primeira quinzena do mês, quase 92 mil atendimentos de pacientes com sintomas gripais – e destes, pouco mais de 45 mil foram casos de suspeita de Covid-19. O mês de novembro, para que se possa ter uma base de comparação, teve pouco menos de 112 mil pacientes de gripe, com cerca de 56 mil casos suspeitos de Covid-19.

Mas a situação mais crítica mesmo é a do Rio de Janeiro. Na capital fluminense predomina a nova variante do vírus – a influenza Darwin/H3N2. Descoberta em abril deste ano, na Austrália, a cepa não está contida na vacina hoje disponível contra influenza, uma vez que a campanha de vacinação no Hemisfério Sul geralmente começa em março. A Organização Mundial de Saúde (OMS) vai incluí-la na vacina a ser utilizada em 2022, para aumentar a eficiência do imunizante. Até o último sábado (18), havia cinco mortes relacionadas à gripe e os casos confirmados passavam de 20 mil. Alagoas e Bahia também registraram óbitos.

Pesquisadores do grupo que publica o Boletim InfoGripe, da Fiocruz, explicam que essa epidemia tem uma relação próxima à pandemia da Covid-19. Por exemplo, os esforços (especialmente o uso máscaras e o distanciamento social) para conter a disseminação do novo coronavírus impediram que os surtos sazonais de gripe ocorressem, tanto no ano passado como neste. Sem a exposição natural ao vírus da gripe, a população não desenvolveu defesa imunológica e a suscetibilidade para contrair a doença aumentou.

Também contribuiu, de maneira um tanto contraditória, o avançar da vacinação contra a Covid-19. Como os números de casos novos, internações e óbitos têm caído, a circulação de pessoas aumentou e, infelizmente, a adesão às medidas de proteção diminuiu. Mas vale lembrar que a pandemia ainda não chegou ao fim – mesmo alguns locais do país que planejavam relaxar a obrigatoriedade do uso de máscara recuaram devido à ascensão da ômicron.

Como gripe e Covid-19 têm formas semelhantes de transmissibilidade – pelo ar e por contato com secreções –, os cuidados são semelhantes para ambas: uso de máscaras, distanciamento social, higienização constante das mãos. Com o aumento dos casos de gripe, essas medidas ganham mais relevância – ainda mais considerando que até o início deste mês, em São Paulo, somente 55,5% do público alvo da campanha de vacinação contra a gripe havia procurado postos de vacinação (a expectativa era de 90%).

O que podemos dizer é que, no ponto em que estamos, baixar a guarda é a última coisa que deveria acontecer. A gripe, ao contrário do que muitos acreditam, não é uma doença leve. Como vimos ao longo da história, formas variadas de gripe afligiram a humanidade em pandemias anteriores.

A pandemia vai passar, é claro, ainda que não se saiba exatamente quando. Ainda que tenhamos mais um fim de ano contido, é fundamental que nos mantenhamos protegidos, para que, num futuro, que esperamos esteja próximo, possamos festejar sem receios.

Por Claudio Lottenberg