Sobre os livros e a ignorância

Por: Jonair Cordeiro*

Em janeiro, agora, de 2020, uma reportagem exibida pela Rede Globo causou indignação na população de Santa Tereza, RJ, pois uma escola pública estava jogando fora, livros. (https://globoplay.globo.com/v/8242715/). A diretora da escola justificou que eram livros mofados e inservíveis, mas, mesmo assim, a Secretaria Estadual de Educação afastou a direção da escola.

Na mesma reportagem, a repórter exibiu uma pintura, um grafite, feito antes na escola que dizia: “Sabedoria. Não destrua nossos livros”.

A indignação é justa. Conhecimento sendo jogado fora.

O Presidente da República classificou os livros didáticos como péssimos e segundo S. Exa., “com muita coisa escrita”.

Mas uma coisa muito, muito mais grave ocorreu na primeira semana de fevereiro e em outra Unidade da Federação. Rondônia.

A Secretaria de Educação daquele estado em documento formal, determinou o recolhimento de 43 títulos de livros de todas as escolas públicas, sob o argumento de que os livros “possuíam conteúdos inadequados para crianças e adolescentes”.

Jonair Cordeiro é advogado e conselheiro da OAB MG



Confrontada pela opinião pública, a Secretaria mentiu. E foi alterando as versões. Primeiro disse que era um rascunho. Era estranho que rascunho saísse com o número do memorando e sinais oficiais do Estado, como seu timbre e brasão. Mas aí, tentou-se algo mais ousado.

Negar que estivesse assinado. Mentira deslavada, pois o documento estava eletronicamente assinado, como se permite em documentos oficiais. Por fim, não era um documento formal, pois não continha assinatura. Estranho. Tinha. Estava assinado por Suamy Lacerda de Abreu – O Secretário de Educação. Depois a coisa virou ato de técnicos que “receberam uma denúncia de que nos livros havia palavrão.”

Deus Pai.

Que coisa vergonhosa.

E explico:

É vergonhosa, primeiro, porque não se diz de quem e a denúncia (possivelmente não existiu);
É escabrosa, porque, sequer diz, onde estão os tais palavrões. (Ah, eles existem sim).

Mas a mais triste é: Ninguém da Secretaria da Educação leu nenhuma das obras que resolveu o Estado recolher.

Chega a ser risível a conversa.

Tenho hipóteses.

São livros difíceis. De leitura difícil, que requerem algum conhecimento do vernáculo e de interpretação.

Então alguém tentou ler, desses tais técnicos, não entendeu do que se tratava e disse: “Realmente não é bom”.

O recolhimento de Franz Kafka, acho que se justifica: Recolha-se para que o Ministro da Educação, que escreve impressionante com c (imprecionante) e paralisação com z (paralização) não o confunda, de novo, com kafta, um prato de origem árabe.

O falso moralismo é que dá a nota dos tempos atuais.

O Presidente da República, ídolo de muitos dos imbecis modernos que amam a lacração, não consegue falar uma frase que não termine com a palavra Porra!

E arranca, pasme-se, aplausos e gritinhos histéricos de uma horda de seus seguidores que vão em romaria, diariamente à porta do Palácio da Alvorada assistir o Presidente demonstrar desconhecimento sobre vários temas, ignorância sobre outros tantos e má-educação com os jornalistas.

Então naturalizamos a “imbecilização”. A pessoa não precisa ler Paulo Freire, mas repete o xingamento a ele que o Presidente fez de energúmeno, sem saber o que a palavra significa, e aposto, sem ter lido um parágrafo da obra dele.

O Secretário de Educação, sem ler as obras, manda recolher os livros. Clássicos.
Manda recolher Machado de Assis, o fundador da ABL – Academia Brasileira de Letras.
Um só parágrafo da obra “O Alienista” demonstra porque essa gente tem raiva da literatura. É porque não a entende. Em um único parágrafo dessa obra leem-se as seguintes palavras: herdara, usura, chofre, opulência, abastança, mediania, assomava, piparotes, pulhas, lhano, resignação, chalaça desafeiçoado, perfídia, perspicaz, labéu.

Pois é. Os imbecis não são egoístas. Querem distribuir democraticamente a imbecilidade para que todos a eles se igualem e em senso comum, possam enxovalhar, sem risco de crítica qualificada, as obras que não leram, não leem e certamente se lessem, não compreenderiam.