O Cruzeiro não foi rebaixado em 2019, vem sendo rebaixado desde 2017

Por: Victor Eduardo

Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro


O dia é 2 de outubro de 2017. Em uma votação acirrada e sob alguma suspeita, a chapa do presidente Wagner Pires de Sá, à época aliada à situação, vencia as eleições presidenciais e assumia o controle do Cruzeiro. Como promessa, transformar o clube em uma das duas principais potências do país em termos de conquistas, torcida, orçamento e estrutura.

Vindo de dois títulos do Campeonato Brasileiro em 2013/2014 e a primeira taça de Copa do Brasil depois de 14 anos em 2017, o Cruzeiro tinha a obrigação de conter os gastos e diminuir a dívida contraída nos anos anteriores. Mas essa gestão, sob a batuta do, no mínimo, irresponsável Itair Machado, fez justamente o contrário.
Para conter a forte rejeição da torcida, que já sabia da má fama criada pelo dirigente, principalmente, no Ipatinga, a aposta em um projeto megalomaníaco, pautado na contratação de jogadores renomados, postura agressiva contra os rivais e discursos cheios de falso populismo. Funcionou.

Em 2018, a montagem de um dos elencos mais caros do país e o bicampeonato da Copa do Brasil fizeram a torcida entrar em êxtase e se cegar diante da administração cada vez mais danosa ao clube. Quem tentava alertar para a loucura administrativa que se instaurava na Toca da Raposa era chamado de “anti” e perseguido até se calar ou mudar de opinião.

Mas ainda havia tempo de consertar a rota. A altíssima premiação da principal copa nacional permitia aos dirigentes pagar algumas das intermináveis dívidas e montar elencos mais modestos, que poderiam continuar competitivos. Mas seria muita ingenuidade acreditar que isso seria feito.

Os gastos exorbitantes continuaram, as dívidas aumentaram e quem deveria fiscalizar e denunciar permaneceu calado. Mas o tempo é implacável, e a falta de profissionalismo que assola o clube há anos finalmente trouxe seu “legado” em 2019, que trouxe consigo as denúncias de atividades criminosas praticadas entre dirigentes, conselheiros, torcedores e empresários.

A partir daí, tudo que acontece é apenas consequência. A falta de dinheiro para pagar salários e premiações começa a ser parcialmente preenchida com a venda de alguns dos principais jogadores do elenco. A ausência de comando dos dirigentes, que passam a se preocupar mais com a polícia do que com a instituição, dá poder a jogadores mimados que se sentem no direito de exercer cargos que não lhe cabem, demitindo, contratando e afastando treinadores.

E mesmo no futebol brasileiro, que nunca foi conhecido exatamente como exemplo de profissionalismo, tamanha negligência não seria perdoada. O Cruzeiro, que começou o ano favorito a tudo, termina a temporada rebaixado, com jogadores fracos e atuando diante de um estádio vazio, naquela que pode ter sido a partida mais importante da sua história.

Com o navio afundado, aparecem os “heróis” e voltam à cena figuras que se esconderam durante os anos de irresponsabilidade. Parte da imprensa, que preferiu se omitir diante da gestão desastrosa, só se prestou a fazer seu papel agora. Zezé Perrella, outrora presidente do conselho deliberativo, cuja missão era fiscalizar e denunciar as inúmeras atividades criminosas e se vendeu, agora posa como o salvador da pátria, como se não tivesse imensa responsabilidade na história toda.

Sobra o torcedor, que terá de suportar uma disputa de Série B e aprender lições importantes. Dirigente merece ser cobrado e vigiado o tempo inteiro, principalmente quando a fase é boa e existe o conforto de fazer o que bem entender com o clube. Alçar certos jogadores ao patamar de ídolo também merece cuidado. Alex, Ricardinho, Dirceu Lopes e Cia fizeram demais pela Raposa para serem colocados ao lado de atletas que fazem gols importantes aqui ou ali.

E fica o recado: gestões pouco profissionais não estão sendo perdoadas. Engana-se quem pensa que o rebaixamento ocorreu apenas por falta (ou exagero) de personalidade dos jogadores, troca de técnicos ou salários atrasados. O rebaixamento é apenas o ato final de uma tragédia que se anunciava desde 2017 e que, cedo ou tarde, aconteceria.

Abaixo, a nota dos jogadores na partida deste domingo:

Fábio – Nota 6
Não teve culpa nos gols e ainda fez defesas importantes. Triste que tenha que passar por isso.

Orejuela – Nota 6
No primeiro tempo apático do time, foi um dos poucos que tentou algo de diferente. Saiu lesionado no segundo tempo.

Cacá – Nota 4
Falhou no primeiro gol, quando perdeu para Dudu na disputa corpo-a-corpo em jogada áerea.

Léo – Nota 4
Quase fez um gol contra no início da partida e foi batido em alguns lances, fruto da desorganização do time.

Dodô – Nota 6,5
Assim como o outro lateral da equipe, mostrou personalidade e tentou alguma coisa diferentes, mas não viu seus companheiros de time no mesmo ritmo.

Henrique – Nota 3
Mais um jogo em que errou muitos passes, na marcação foi OK.

Jadson – Nota 4
Até se movimentou e tentou alguma coisa, mas não é jogador para ditar ritmo de nenhuma equipe.

Ederson – Nota 3
Caiu muito nas últimas rodadas e, claramente, sentiu a pressão do momento. Neste domingo, foi mal novamente.

Marquinhos Gabriel – Nota 2
Além de limitado, mostra pouca personalidade, mesmo com uma carreira relativamente longa. Um dos piores em campo.

Ezequiel – Nota 4
Não dá pra reclamar da falta de esforço. Vinha entrando numa tremenda furada e caiu de paraquedas no time.

Pedro Rocha – Nota 2
O pior em campo. Sentiu muito o peso do momento e não é sombra do que já foi durante a temporada. Seu cruzamento após uma cobrança de escanteio curto é o retrato da situação psicológica do time.

Weverton – S/N
É até injusto avaliar o jogador em condições tão adversas. Nem vinha sendo aproveitado e teve de entrar depois da lesão de Orejuela.

Sassá – Nota 5
Mesmo sem ter grandes recursos técnicos, deveria ter começado como titular, pois é forte e incomoda os zagueiros.

Maurício – S/N
Também não dá nem pra avaliar. O rapaz decidiu o jogo contra o Vasco no primeiro turno e simplesmente sumiu, voltando a ser aproveitado apenas na última rodada. Uma covardia sem tamanho.