A dor do racista!

Por: Jonair Cordeiro

Afinal, o racismo aumentou? Tenho me perguntado isso praticamente todos os dias. Semana passada comemorou-se o Dia da Consciência Negra, no dia 20 de Novembro, em alusão a Zumbi dos Palmares. E, com muito pesar, entendo, sim, que o racismo aumentou.
Mas qual seria a causa desse aumento?

Para entendermos o que está acontecendo é preciso entender os movimentos de luta da sociedade e como numa sociedade se conseguem direitos:

Para o jurista alemão Rudolf von Ihering, as conquistas sociais são alcançadas à custa de muita luta, de muita dor. Chega a comparar o nascimento de uma lei, às dores de um parto.
Então entendamos:

Se negros estão (estamos) conquistando espaço em lugares de poder, alguém está perdendo.
O racismo não é um fenômeno natural; não é uma divisão que surgiu porque pessoas se viram diferentes das outras e pensaram: “-Ah, vamos dominá-los, subjuga-los, explorá-los, impor castigos físicos, roubar-lhes a vida e a liberdade porque são pretos!”.

Não! O Racismo e uma tecnologia a serviço de ganhos astronômicos de pessoas.
Sim, caro amigo, a história da escravidão no Brasil é isso. Um grande negócio. Uma grande fortuna. O tráfico de pessoas escravizadas movimentava a economia mundial. E no Brasil, movimentou mais dinheiro que o ciclo do café ou do ouro, dizem alguns estudiosos.

E não se engane, não! A escravidão somente foi extinta porque não mais interessava à Inglaterra, que continuasse. A Inglaterra era o grande capital mundial da época.
Tá. Mas e daí? A escravidão já acabou; Vocês precisam olhar para a frente. Parar com esse vitimismo.

Lamento, sinceramente, que você pense assim. E mais ardentemente te recomendo que se você pensa isso, não fale. Não dê mostras de seu racismo assim de forma tão escancarada. E um pouco além, não fale, não critique a opressão que você não vive.

Seria como um gordo, abastado dizendo a um pedinte miserável que ele precisa se mover, que precisa parar com o vitimismo e olhar para a frente.

O racismo é estrutural, fomos ensinados a pensar de forma racista. E é tão simples perceber isso: procure por negros nos espaços de poder. Não vou nem discutir os grandes espaços de poder; Não vou discutir presidência da república, governo de estado. Vamos falar de pequenos espaços de poder: pastores de igreja evangélica; padres na Igreja Católica, diretores de escolas particulares, diretores de escolas públicas, gerentes de banco, gerentes de loja. Não estaremos lá. Ou por fidelidade aos fatos: pouquíssimos estarão lá.

Mas o que me assusta é exatamente o destemor de se dizer racista. Casos avolumam-se de pessoas que caminham entre a imbecilidade e a estupidez, entre a insensatez e a ignorância, praticando atos racistas.

Pasmem. Em pleno 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, um professor universitário, depois de ser chamado de macaco, foi esfaqueado por um homem branco num shopping em São Paulo. Na mesma semana, um deputado refere-se “negrinhos bandidinhos” e sob os aplausos de muitos.

Por isso, minha sensação de que o racismo está aumentando.

E ele é uma resposta, muitas vezes violenta, aos avanços que a raça negra tem conquistado, a duras penas, sob muitos xingamentos, sob muitas pechas de “macaco” e “macaca” desferidos contra quem toma espaços de poder. Ludmila (a cantora), Maju (a apresentadora), Preta Gil (a artista), são provas vivas disso. Elas provam que o preconceito é racial e não social como defendem alguns racistas. Preta Gil é filha de um homem de sucesso, um artista reconhecido internacionalmente. É discriminada por ser preta, se me permitem o trocadilho.
Mas, há esperança. Racistas não vencerão.

A coragem de desafiar o poder branco, a coragem de denunciar em delegacias, de mover processos por danos morais, hão de fazer cessar os abusos contra as pessoas negras, tão vistos por aí.

Denunciar é preciso. Processar é necessário.

As denúncias de injúria racial, as condenações que virão a esses racistas, certamente não farão com que os racistas nos amem. Entretanto, certamente, farão nos respeitem.


Jonair Cordeiro é advogado e conselheiro da OAB MG