Santos e Athlético não devem ser visto como algozes, mas sim exemplos para Cruzeiro e Atlético.

Por: Victor Rodrigues

No final de semana cujas principais atenções estavam voltadas à final da Libertadores vencida pelo Flamengo, ocorreu também a 34ª rodada do Campeonato Brasileiro. Mais uma vez, rodada frustrante para os representantes mineiros na Série A. No sábado, o Cruzeiro foi goleado pelo Santos por 4 a 1, enquanto o Galo foi batido em casa por seu (quase) xará paranaense no domingo.

Por mais que neste momento da temporada Cruzeiro e Atlético estejam em situação bem diferente dos seus últimos adversários, ambos podem tirar algumas lições do que foi feito em 2019 por Santos e Athlético.

Apesar da segunda colocação na principal competição do país, o CT Rei Pelé hoje é um lugar tão confuso quanto a Toca da Raposa, fazendo a ressalva de que por lá não apareceram denúncias de atividades criminosas feitas por dirigentes. Troca de farpas entre técnico e presidente, vice tentando tomar o lugar do superior, jogador dando tapa na cara do outro... Tudo isso aconteceu no 2019 santista.

Porém, um fato diferente fez com que o clube alcançasse brilhante campanha apesar de todos os problemas citados: Jorge Sampaoli. Em baixa após uma Copa do Mundo desastrosa com os hermanos, o técnico argentino aceitou o desafio e levou uma equipe que está longe de ter grandes jogadores para as cabeças do Campeonato Brasileiro. No campo, um futebol diferente daquele praticado pela grande maioria dos times do país, com uma proposta de jogo ofensiva e conceitos extremamente modernos.

Já o Cruzeiro, cujo elenco era até mais badalado do que o santista, insistiu na mediocridade inerente ao trabalho de Mano Menezes e, quando o nível de competitivade da temporada aumentou, se viu obrigado a demitir o técnico bicampeão da Copa do Brasil. Trouxe Rogério Ceni, cuja mentalidade distoa totalmente do atual comandante do Palmeiras, mas não o bancou quando alguns medalhões sabotaram seu trabalho.

Resultado: outra aposta no mais do mesmo. Trouxe Abel Braga, que não faz trabalhos consistentes há anos, viu o time mergulhar em uma falsa invencibilidade, marcada por empates que não levaram a equipe a lugar algum, e continua ameaçadíssimo de rebaixamento, mesmo com um dos elencos mais caros do país.

Divulgação Cruzeiro

Abel Braga no Cruzeiro: aposta no mais do mesmo e pouco resultado prático em campo


Já o Atlético perdeu para o Furacão, que provou sua força vencendo um adversário cujo orçamento está, hoje, em um patamar muito parecido. Campeão da Sul-Americana em 2018 e da Copa do Brasil em 2019, o clube paranaense desenvolve trabalho exemplar há alguns anos e se tornou protagonista do futebol nacional, mesmo sem se dar ao luxo de gastar dinheiro como Flamengo e Palmeiras.

O segredo para tal sucesso? Profissionalização de todas as áreas da instituição, valorização da marca (com direito a troca de nome e escudo) e investimentos pontuais. O elenco, cuja folha salarial é a 13ª maior do Brasileirão, ficando atrás até dos dois mineiros, é formado basicamente por jogadores experientes que ainda tem muita coisa a oferecer e jovens revelações da categoria de base atleticana. Renan Lodi, Bruno Guimarães, Léo Pereira, Vitinho... Todos são promessas que foram ou ainda irão, fatalmente, atuar no futebol europeu.

No Atlético, criou-se a narrativa de que dificilmente seria possível competir em alto nível por conta do corte de gastos (necessário), argumento que cai por terra ao ver os resultados atuais conquistados pelo adversário da última rodada.

O crescimento agudo das dívidas nos últimos anos não permite a montagem de equipes estreladas como as de 2013 e 2016, mas faltou inteligência para encontrar alternativas que compensassem o investimento mais modesto.

Ao invés de contratar ou manter no grupo vários veteranos que hoje oferecem pouco em campo, o Galo poderia ter olhado com mais atenção às suas categorias de base, que só passaram a render frutos quando não havia mais escolhas. Começar o ano com Levir Culpi também foi uma decisão desastrosa, acarretando na eliminação vergonhosa da Libertadores e a perda do dinheiro que a competição poderia gerar.

Com o rebaixamento praticamente descartado, Sette Câmara e os demais homens fortes do clube tem a missão de aproveitar o restante do ano para observar quais jogadores ainda podem ser úteis para 2020 e montar um elenco que combine com a mentalidade do próximo treinador.

Foto: Felipe Rosa

Revelado nas categorias de base do Athlético, Vitinho ganhou espaço em 2019 e foi o herói do jogo deste domingo.


Portanto, fica a lição. Mesmo que tenham metas a cumprir ainda neste ano, seja com a luta por uma vaga na Sul-Americana ou a fuga do rebaixamento, Cruzeiro e Atlético podem começar a olhar para o futuro e se espelhar no exemplo de outros clubes, inclusive seus algozes.

*Victor Eduardo é jornalista e escreve semanalmente neste espaço