Cruzeiro e Atlético empataram, mas todos nós saímos derrotados... O racismo precisa ser combatido

Victor Eduardo*

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Eu gostaria muito de aproveitar este espaço para falar sobre o fraquíssimo jogo que foi Cruzeiro e Atlético, o pior clássico em muitos anos.

Eu gostaria muito de ressaltar aos cruzeirenses o quão limitado é o repertório ofensivo do time de Abel Braga.

Eu gostaria muito de fazer coro aos atleticanos e falar sobre as péssimas mudanças realizadas por Vagner Mancini na tarde desse domingo.

Mas quando o final de semana já se preparava para o seu suspiro final, uma desagradável surpresa resolveu aparecer nos noticiários e nas redes sociais. Antes de qualquer coisa, é bom deixar claro que essa não é uma discussão sobre torcidas, nem Cruzeiro x Atlético. É sobre humanidade.

Em meio ao tumulto que se instaurou no Mineirão após o fim da partida, um vídeo flagrou um grupo de torcedores revoltados com um segurança, sem deixar claro qual o motivo para tamanha ira. E durante tal intimidação, “aceita” de maneira extremamente profissional pela vítima, um indivíduo se volta ao trabalhador, negro, e diz: “olhe a sua cor”. Sim, foi exatamente o que você leu.

E, apesar de vivermos em um país cuja pluralidade racial é enorme, esse não é um caso isolado. Há cinco anos assistimos revoltados o goleiro Aranha ser chamado de macaco em um jogo do Santos, sua equipe àquela altura, contra o Grêmio. Neste ano, uma entrevista do ex-árbitro Márcio Chagas ao portal UOL (se você não leu, leia) relatando injúrias raciais que sofreu durante a carreira chocou muita gente. São incontáveis casos!

Nem o futebol, o mais democrático dos esportes, cuja contribuição negra durante toda a sua história é imensurável, escapa dessa praga. Até porque, assim como qualquer outra atividade, ele é apenas um retrato da sociedade. Uma sociedade cuja desigualdade só aumenta, e que se sente cada vez mais à vontade em demonstrar, sem pudor algum, sua veia racista, já que aqueles que deveriam combater o problema, em alguns momentos chegam a estimulá-lo.

Para entender melhor o cenário atual, vamos a alguns números: neste ano, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, entidade voltada à fiscalização desses atos repugnantes, já havia contabilizado 19 casos até o mês de maio, número muito próximo àqueles registrados em anos anteriores. Em 2018, 53 denúncias foram feitas, um aumento exponencial se comparado a outros levantamentos. Ao todo, já foram mais de 90 casos de discriminação no futebol brasileiro desde o primeiro estudo, realizado em 2014.

Mas o que fazer diante disso? A nós, meros mortais, cabe a denúncia e a repulsa com aquele que foi capaz de ato tão covarde. Aos clubes, a ajuda na identificação dos elementos e ações sociais que demonstrem que esse tipo de comportamento não é bem-vindo no futebol. Às entidades maiores e a polícia, a punição. Se o autor de qualquer crime, em tese, é identificado e punido, porque aquele que está dentro de um estádio de futebol consegue tamanha blindagem?

Por fim, para não dizer que deixei de falar do jogo, fica aqui o registro: horroroso. O Atlético consegue um ponto que o deixa relativamente tranquilo quanto ao rebaixamento, mas o Cruzeiro dá cada vez mais sinais de que o drama seguirá até o final.

Aliás, drama é uma boa palavra para resumir o que é ser negro no Brasil, parcela da população que é vítima do ato mais abjeto que um ser humano pode cometer. Inclusive no futebol.

*Victor Eduardo é jornalista e escreve semanalmente neste espaço