Em rodada perfeita, Cruzeiro desperdiça chance preciosa de se distanciar do Z4

Victor Eduardo*

O cenário era perfeito. Concorrentes na luta contra o rebaixamento tropeçando (inclusive entre si), adversário em péssima fase, jogo em casa... Tudo conspirava para que o Cruzeiro embalasse e abrisse quatro pontos de vantagem para a “zona da confusão”. Mas a equipe de Abel Braga tropeçou contra o Bahia e viu dois preciosos pontos escaparem.

Diante do que aconteceu durante a peleja, o resultado não foi tão ruim, já que o time mandante atuou desde os 20 do segundo tempo com um homem a menos e teve que arrancar o empate à fórceps. Mas quem está em situação tão complicada não pode se dar ao luxo de perder pontos como os disputados na noite deste domingo.

Por mais decepcionante que tenha sido, o tropeço entra no “pacote Abel Braga” que o Cruzeiro se propôs a comprar em setembro. Quando dá a bola ao adversário e sai no contra ataque, principalmente em jogos fora de casa, o talento dos jogadores se sobressai e bons resultados são alcançados. Por outro lado, a dificuldade em propor o jogo é visível, resultando num show de bolas aleatórias levantadas na área.

Só acontece alguma coisa de diferente quando Ederson, uma das poucas (senão a única) boas notícias do clube no ano, entra no jogo. Forte, talentoso e inteligente, o jovem volante demonstra muita personalidade e assumiu, de maneira totalmente prematura, um protagonismo enorme no funcionamento coletivo do Cruzeiro.

Foi-se aquele tempo em que os meio-campistas eram divididos entre aqueles que apenas armavam e aqueles que desarmavam. O futebol atual exige mais. Hoje, os grandes jogadores da posição exercem diversas funções naquela região do campo, mais fundamental do que nunca para o sucesso de uma equipe. Dinâmico, Ederson se junta a Henrique na saída de bola e, se necessário, também atua ao lado dos meias, armando bons lances de ataque.

Falando em ataque, se o jogo de ontem ficou marcado pela entrada de Dodô no lugar do Egídio - contestado há muito tempo pela torcida - Abel também deve pensar, seriamente, na manutenção da titularidade de Fred. O gol de Sassá foi apenas o recado mais forte para o técnico cruzeirense. Tecnicamente, não há comparação entre um jogador e outro, mas o momento pede que o autor do tento salvador contra o Bahia tenha mais chance entre os titulares.

Fred tem currículo invejável e uma grande história no futebol, inclusive com ótima passagem pelo próprio Cruzeiro entre 2004 e 2005, mas seu declínio físico é claro. E dentro de um esporte cuja pegada e competitividade é cada vez maior, sua contribuição é quase nula. O atacante ainda pode ser útil como uma voz experiente em uma situação tão delicada, mas na cancha sua presença se torna, a cada dia, mais dispensável.

Para não dizer que o saldo final foi de todo ruim, o Cruzeiro não deixou de somar um ponto, chegando a oito jogos consecutivos sem derrota (5 empates, 3 vitórias). O próximo desafio, porém, é muito duro: confronto contra o Athlético Paranaense na Arena da Baixada. Uma derrota seria natural e não deve ser motivo para maior alarde, ao contrário dos seguidos empates nos jogos em Belo Horizonte. Estes sim, pontos perdidos que devem ser bastante lamentados.

*Victor Eduardo é jornalista e escreve semanalmente neste espaço