Raul de Souza comemora 85 anos com show gratuito em BH

Considerado o melhor trombonista do mundo, ele apresenta sucessos e autorais

Élcio Paraíso/Divulgação


O carioca Raul de Souza tocou com Pixinguinha e até para um búfalo asiático
O Brasil produz a melhor música do mundo. A constatação é de Raul de Souza, que se apresenta neste sábado (24) em Belo Horizonte. O músico fala de cátedra. No dia 23 deste mês ele completou 85 anos, e o espetáculo terá, como consequência, a comemoração desta data. ?Estou contente, tenho muitos amigos trombonistas em BH, como o Pedro Aristides, vai ser a festa do meu aniversário?, confirma Souza, que tem como um de seus parceiros mais frequentes o contemporâneo João Donato.

Os dois, inclusive, tinham um show marcado na boate Blue Note, no Rio, mas que teve de ser adiado para o próximo dia 7 de setembro porque Donato, que completou 85 anos no último dia 17, portanto seis dias antes de Souza, ficou doente. Essa geração, que viu de perto a aproximação entre o jazz e a bossa nova na década de 60, tinha como praxe ir para os Estados Unidos em busca de melhores oportunidades de trabalho.

Foi no país ianque que Souza passou a ser considerado o melhor trombonista do planeta, título que ostenta até hoje. ?Não me considero o melhor do mundo, existem muitos bons que eu conheço. Tive a sorte de receber esse prêmio, deve ser pelo meu estilo, a maneira que eu tenho de tocar?, minimiza o músico. Autodidata, ele demonstra o orgulho de ser respeitado ?pelos americanos, ingleses, suíços, suecos, alemães?. Souza tocou em um sem número de países, mas escolheu a França, terra de sua esposa, para viver.

Inquieto, ele retorna com frequência ao Rio de Janeiro, onde nasceu, e já tem programado a gravação de um próximo disco, em Curitiba. O sucessor de ?Blue Voyage? (2018) ainda não tem nome, mas as músicas do mais recente álbum estão garantidas na apresentação da noite. ?É um repertório misto, com músicas autorais e vários compositores que admiro?, explica. Dentre eles, surgem Thelonious Monk, Johnny Alf e o amigo Donato.

?A quantidade de músicos bons que tem no Brasil não existe em nenhum lugar do mundo, com a facilidade das pessoas se integrarem e desenvolverem um estilo próprio, mas, infelizmente, estamos sendo desgovernados, então fica difícil para sobreviver, a gente tem que lutar o tempo todo?, lamenta Souza.

História. Raul, na verdade, se chama João José Pereira de Souza. O batismo artístico aconteceu durante os primeiros passos da carreira. Ao se apresentar no programa ?Calouros em Desfile?, em 1949, interpretando uma música de Pixinguinha, Ary Barroso decidiu chamá-lo de Raulito, ato que Souza intui ter sido ?a criação de uma versão em espanhol inspirada em Raul de Barros?, o mais famoso trombonista da época, autor do choro ?Na Glória?.

?Quando fui para os Estados Unidos, troquei para Raul. Para mim foi muito bom, nunca gostei do nome que meu pai me deu?, admite o entrevistado. Pouco antes, Souza havia se encontrado na rua justamente com Pixinguinha, com quem tocou na ocasião. ?Ele me mandou procurá-lo na cidade, e nunca mais o encontrei?, conta Souza. No entanto, por essas artimanhas do destino, surgiu no seu caminho outro ícone da música brasileira.

?Acabei me deparando com o Nelson Cavaquinho, e ele abriu as portas das rádios para mim, foi quem me colocou para ganhar dinheiro?, diverte-se. Ele, que acumula quase 20 discos no currículo e já subiu ao palco ao lado de Airto Moreira, Milton Nascimento e Sérgio Mendes, descobriu o trombone quando frequentava a igreja evangélica com sua família.

?Eu ficava ligado nos instrumentos graves, como a tuba, o sax e o trombone?, relembra. Por ser mais barato, ganhou de presente um trombone do pai. Com ele, tocou para plateias de todas as nacionalidades. Um dia, de pileque, chegou a tocar para um búfalo asiático, com o qual se deparou após um passeio de pedalinho em Curitiba, num dos episódios mais inusitados de sua trajetória.

?A primeira vez que toquei trombone foi quando perguntei a um amigo se podia soprar, e aí comecei a desenvolver as escalas, sempre assim, sem professor mesmo?, conclui Souza, que não parou mais de ensinar.

Serviço. Show de Raul de Souza, neste sábado (24), às 19h30, na praça Floriano Peixoto. Entrada gratuita.

Ouça disco clássico de Raul de Souza: