Esquerda escolhe diminuir

É preciso também refletir sobre os efeitos de empurrar todo mundo que discorda em algum ponto para a direita; foi o que se fez com Marina Silva no passado

Após a votação da reforma da Previdência, o debate em muitos partidos de esquerda é sobre a expulsão de quadros que votaram a favor da medida, apesar de orientação da legenda. A questão, interna de cada sigla, tem diversos aspectos e não se pode dizer que não seja legítima. Oras, se há um estatuto que prevê o fechamento de questão, se alguém se coloca à disposição do partido, usa recursos do fundo partidário e o nome da legenda para se eleger e não cumpre com aquilo que está lá no papel, não há nada que impeça o partido de colocá-lo para fora. Daí a dizer que é uma medida inteligente, vai longa distância.

PDT e PSB estão vivendo esse dilema, que já foi enfrentado no passado. Veja como o mundo dá voltas. Em 2003, o PT expulsou a senadora Heloísa Helena (AL), e os deputados Luciana Genro (RS) e Babá (BA) e João Fontes (SE). O motivo: eles votaram contra a reforma da Previdência enviada pelo então presidente Lula. Hoje, petistas estão por aí fazendo pressão para que PDT e PSB expulsem deputados da esquerda que, ao contrário, votaram a favor da reforma colocada.

Não estou querendo comparar as reformas que foram feitas em 2003 e agora. A questão é a legitimidade de se expulsar quem descumpre orientações que estão previstas em estatuto do partido. Mas, convenhamos, se um partido for levar a ferro e fogo o que lá está escrito, não sobraria ninguém. A política monetária que foi adotada pelo PT no governo está de acordo com o que versa o estatuto da legenda? E os casos de corrupção, estão?

Mais que isso, é preciso também refletir sobre os efeitos de empurrar todo mundo que discorda em algum ponto para a direita. Foi o que se fez com Marina Silva no passado. É o que se tenta fazer com a pedetista Tábata Amaral agora. E com o apoio de Ciro Gomes, que foi vítima da mesma estratégia desde as últimas eleições. Assim, os partidos de esquerda não vão conseguir oxigenar seus quadros nem atrair os eleitores de centro. Quanto mais radicalismo, mais chance de perder eleições no futuro.

Ouça o comentário do editor de Política Ricardo Corrêa: