Atendimento psicológico a policiais civis é ampliado

Projeto da Delegacia Regional de Betim ajuda no preparo emocional da corporação; familiares dos profissionais também estão sendo atendidos

Ronaldo Silveira


Voluntário. O policial e psiquiatra Lincoln Fonseca já atendeu cerca de 40 policiais e servidores da DP
No ano passado, depois de alguns episódios trágicos envolvendo policiais civis, que cometeram feminicídios seguidos de suicídios, a Delegacia Regional de Betim tirou do papel um projeto que tinha como principal objetivo reforçar o cuidado com preparo emocional destes profissionais. Um ano depois, os idealizadores do projeto comemoram os resultados e também a expansão da iniciativa. 

O programa é aberto a todos os policiais e servidores cedidos para a Delegacia Regional ? o que totaliza cerca de 200 pessoas. Todos foram convidados a participar de maneira espontânea e, dois médicos legistas da própria corporação, que têm formação acadêmica na área de psiquiatria, iniciaram os atendimentos de forma voluntária.

De acordo com o policial, médico legista e residente de psiquiatria Lincoln Moraes da Fonseca, que é um dos profissionais que está realizando os atendimentos, o número de pessoas que buscaram ajuda  superou as expectativas. ?Existe ainda um grande preconceito quanto aos tratamentos psicológicos e psiquiátricos. As pessoas acham que ?é coisa de doido? e se negam a buscar ajuda. Mas, mesmo assim, neste primeiro ano, mais de 40 profissionais da 2ª DP procuraram atendimento. Muitos já tiveram alta e conseguiram se tratar sem medicação?, revelou.

Segundo Fonseca, embora o cotidiano dos policiais envolva muitas situações complexas, os diagnósticos não fugiram tanto dos apresentados pelos pacientes comuns. ?São quadros de depressão, ansiedade, estresse, problemas familiares, dependência química e o uso abusivo de álcool?, ponderou.

Para o inspetor de investigadores da 2ª Delegacia Regional da Polícia Civil de Betim, Marco Antônio Nunes de Souza, o Chapinha ? além da atenção para o desequilíbrio emocional dos policiais, também é importante expandir o atendimento para os familiares, que participam do cotidiano desses profissionais e podem ser afetados. ?Estamos felizes com o resultado, mas ainda pretendemos conseguir psicólogos para complementar o tratamento dos policiais. Além disso, a expansão da iniciativa  aos familiares já começou, e cerca de 10 pessoas estão sendo atendidas?, afirmou.



Tratamento potencializado

Diagnosticada com depressão, a delegada Patrícia Aparecida Marques Fernandes Rezende sabe da importância do projeto e já faz acompanhamento há oito anos. No entanto, ao participar do projeto na 2ª DP, ela conseguiu potencializar seu tratamento com algumas sugestões de Fonseca. ?Me lembro dele dizer que a atividade física é como remédio para quem tem depressão. Desde então, nunca mais parei de me exercitar. É importante que as pessoas saibam que é possível viver bem mesmo sendo vítimas da depressão, desde que reconheçamos que a possuímos e assumamos a necessidade de sermos ajudados profissionalmente?, ressaltou. 

É preciso buscar ajuda

Uma funcionária do setor jurídico/administrativo, que atua como técnica de Polícia Civil em Betim há quatro anos, está recebendo atendimento desde fevereiro e afirma que o acompanhamento a ajudou a lidar com os problemas diários, separando o trabalho da vida pessoal. ?Criamos sempre um barreira nestes atendimentos e evitamos falar o que realmente sentimos, Mas é um passo de cada vez. Estamos lidando com pessoas e precisamos lembrar que somos humanos também?, afirmou.

Outro policial, que preferiu não ser identificado, ressaltou a importância do acompanhamento. ?Foi  comprovado cientificamente que a função policial é muito complexa e gera um desgaste emocional muito grande, uma vez que estamos sempre envolvidos com problemas alheios, que afetam a vida humana. Esse apoio é muito importante para que tenhamos saúde para desempenharmos nossa função em prol da sociedade?, afirmou.