30 anos Hillsborough: A eterna luta por justiça

Apenas em 2016, 27 anos depois da tragédia, um júri determinou que a negligência da polícia foi a principal culpada pelas 96 mortes, e eximiram os torcedores do Liverpool da responsabilidade

AFP


Supporters display a banner in support of the victims of the Hillsborough football stadium disaster where 96 men, women and children died in a fatal crush at an FA Cup tie between Liverpool and Nottingham Forest at Hillsborough ahead of the English Premier League football match between Liverpool and Chelsea at Anfield in Liverpool, north west England on April 14, 2019. (Photo by Paul ELLIS / AFP) / RESTRICTED TO EDITORIAL USE. No use with unauthorized audio, video, data, fixture lists, club/league logos or 'live' services. Online in-match use limited to 120 images. An additional 40 images may be used in extra time. No video emulation. Social media in-match use limited to 120 images. An additional 40 images may be used in extra time. No use in betting publications, games or single club/league/player publications. /
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Supporters display a banner in support of the victims of the Hillsborough football stadium disaster where 96 men, women and children died in a fatal crush at an FA Cup tie between Liverpool and Nottingham Forest at Hillsborough ahead of the English Premier League football match between Liverpool and Chelsea at Anfield in Liverpool, north west England on April 14, 2019. (Photo by Paul ELLIS / AFP) / RESTRICTED TO EDITORIAL USE. No use with unauthorized audio, video, data, fixture lists, club/league logos or 'live' services. Online in-match use limited to 120 images. An additional 40 images may be used in extra time. No video emulation. Social media in-match use limited to 120 images. An additional 40 images may be used in extra time. No use in betting publications, games or single club/league/player publications. /
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96 torcedores do Liverpool morreram asfixiados, esmagados contra uma grade do estádio de Hillsborough
Uma faixa passou a ser comum em Anfield, a casa do Liverpool, e trazia os dizeres ?Justice For The 96?. Ela demorou a ser feita. Apenas em 2016, 27 anos depois da tragédia, um júri determinou que a negligência da polícia foi a principal culpada pelas 96 mortes, e eximiram os torcedores do Liverpool da responsabilidade.

Quatro ano antes, em 2012, o jornal The Sun, odiado pelos torcedores, se retratou e pediu perdão pelo lamentável comportamento de 1989, quando colocou a culpa nos fãs e relatou uma série de mentiras. Entre elas, o tabloide chegou a afirmar que os torcedores urinaram nos policiais. Representantes do jornal, inclusive, são proibidos de entrar em Anfield, a pedido dos fãs do Liverpool. David Cameron, primeiro ministro inglês há 7 anos, também se desculpou décadas depois de o próprio governo ter embarcado na onda que culpou as pessoas erradas.



Em 2012,a Promotoria Pública do Reino Unido passou a poder apresentar queixas criminais contra os responsáveis. Em tempo: o chefe de polícia David Duckenfield era o encarregado das operações em Hillsborough e fez uma série de lambanças, além de culpar o hooliganismo por tudo. Permitiu a superlotação, deixou a partida começar em meio ao tumulto e, não satisfeito, ainda atrasou a entrada das equipes de socorro. Na lista dos responsáveis também está o serviço de ambulâncias da cidade e o dono do estádio, o Sheffield Wednesday. Na época, as semifinais eram disputadas em campos neutros. Hoje, Wembley recebe os jogos. As famílias envolvidas comemoraram demais essa reparação histórica.

Foi só na primeira semana deste mês, porém, que Graham Mackrell se transformou no primeiro condenado pela justiça inglesa pela tragédia de 1989. Mackrell, hoje com 69 anos, era secretário do Sheffield Wednesday e antigo oficial de segurança e foi considerado responsável por permitir que 24 mil torcedores do Liverpool entrassem pela pífia quantidade de 23 catracas. Vale lembrar que, em 1981, um incidente no mesmo estádio tinha deixado 200 torcedores do Tottenham feridos. Mackrell ainda trabalhou no West Ham e teve um cargo diretivo na Eurocopa de 1996, disputada na Inglaterra.

Já David Duckenfield, hoje com 78 anos, foi absolvido das acusações de homicídio culposo e negligência, apesar de ter sido quem autorizou a abertura dos portões, o que levou à entrada desorganizada dos torcedores e o consequente esmagamento. A acusação vai recorrer. O Liverpool, claro, lamentou a não condenação por meio de uma nota oficial. Todos aguardam ainda o julgamento de quatro envolvidos no incidente indiciados em 2017.



Homenagens que nunca pararam

A tragédia de Hillsborough jamais vai ser deletada da história do Liverpool e do futebol inglês. A cada ano, o 15 de abril rende homenagens vindas de todas as partes. O Everton, vizinho e rival do Liverpool, é um dos casos. Em 2012, apenas para citar um exemplo, um jogo do Everton foi marcado por uma homenagem emocionante. A partida era contra o Newcastle, mas dois garotos entraram em campo, um com a camisa do Liverpool e outro, com a do Everton, um com a camisa 9 e outro com a camisa 6. Ao fundo, a música ?He Ain´t Heavy, He?s My Brother?, da banda The Hollies, título que, em tradução simples, significa ?ele não é um fardo, ele é meu irmão?. Nada mais simbólico.



Até mesmo jogos nos quais o Liverpool não está diretamente envolvido são marcados por homenagens. Já teve torcida cantando ?You?ll Never Walk Alone?, eternizado pela torcida dos Reds, mas entoado, por exemplo, em um jogo da FA Cup entre Stoke City e Manchester City em um dia próximo a 15 de abril. Até mesmo Alex Ferguson, ex-técnico do Manchester United, maior rival do Liverpool, foi visto aplaudindo ações sobre Hillsborough. O próprio United, aliás, já fez peças para as redes sociais sobre o tema.

Quando a tragédia completou 25 anos, algumas cenas foram tocantes. Em Sheffield, o palco do desastre, o estádio de Hillsborough, deixou 96 cadeiras vazias, pintadas de branco e com flores. No mesmo final de semana, em um jogo do Arsenal pela FA Cup, em Wembley, cachecóis do Liverpool foram colocadas em 96 cadeiras do estádio, casa da seleção inglesa.

Referências no escudo e na camisa

O Liverpool jamais vai se distanciar do que aconteceu com seus torcedores. Cada um que perdeu sua vida em Sheffield é lembrado e reverenciado pelo clube. Camisas dos últimas temporadas chegaram a ter o ?96? bordado com duas chamas ao lado dos números, a chama eterna para lembrar dos mortos. O próprio escudo do clube, modificado no início dos anos 1990, trazia a mensagem ?You´ll Never Walk Alone?, de significados múltiplos para o Liverpool, mas também uma referência ao desastre de Hillsborough. Ao lado do mítico pássaro liverbird, símbolo da cidade, as chamas. Sempre eternas.