Estudo inédito no país avalia hábito alimentar de crianças

Ministério da Saúde quer formular políticas públicas que combatam a desnutrição e a obesidade

Ramon Bitencourt


Em dois dias, Lívia conseguiu entrar só em quatro casas para fazer os levantamentos
Uma pesquisa inédita no país está coletando dados sobre os hábitos alimentares de crianças de 0 a 5 anos em 15 mil domicílios brasileiros. Encomendado pelo Ministério da Saúde, o estudo vai nortear a formulação de políticas públicas para o combate à desnutrição e para o controle da obesidade infantil. Em Minas Gerais, 660 famílias de sete municípios devem receber a visita de pesquisadores do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) até o mês de maio. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), até 2017, 4,89% das crianças mineiras nessa faixa etária estavam desnutridas, e 7,45%, obesas.



Coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em conjunto com a Fundação Oswaldo Cruz, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro e a Universidade Federal Fluminense, o Enani tem apoio de várias outras instituições de ensino públicas do país. Além de fazer um levantamento sobre o que meninos e meninas têm comido no dia a dia e recolher informações sobre peso e altura, a pesquisa vai permitir a identificação de deficiência de vitaminas e minerais com exames de sangue.



?Nós vamos estudar informações sobre as deficiências de vitamina A e de ferro, além de como está o comportamento de vitaminas do complexo D. Vamos analisar ainda questões como o desenvolvimento cognitivo dessas crianças, o ambiente em que elas estão inseridas, no que diz respeito às habilidades culinárias dos responsáveis, e também se a família mora numa região com acesso a alimentação saudável?, explica o coordenador nacional do Enani, Gilberto Kac.



Durante a visita, uma das primeiras perguntas feitas aos pais é o que a criança comeu nas últimas 24 horas. Para entender os hábitos alimentares dos filhos, as mães também são analisadas e respondem a questionamentos sobre a licença-maternidade, amamentação e introdução de alimentos na dieta das crianças.



?Esperamos conseguir entender alguns dos determinantes da interrupção precoce da amamentação e da introdução antecipada de alimentos de baixa qualidade, como os ultraprocessados. Tudo isso é importante para a saúde da família e, sobretudo, da criança?, destaca o coordenador da pesquisa.



Moradora do bairro Santa Edwiges, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, a faturista Erika Barboza Valadares, 32, não hesitou em abrir as portas de casa para que uma pesquisadora recolhesse informações sobre a filha, de 2 anos. ?Foram perguntas muito interessantes. Acho importante cuidar da saúde, principalmente de uma criança. Sempre me preocupei muito com a alimentação dela?, comenta.



Resultados. A conclusão do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil só deve ser divulgada em 2020, já que a fase de levantamento de dados vai ser finalizada em novembro deste ano. Até lá, 342 equipes estarão nas ruas para entrevistar famílias de 123 municípios em todos os Estados do país e também no Distrito Federal.



Exames. O sangue colhido durante a pesquisa será usado para realização de hemograma completo e identificação de anemia e deficiência de vitaminas. Uma parte do material será armazenada para análises posteriores. Os resultados serão enviados às famílias e, em caso de algum problema, a criança será encaminhada para uma unidade de saúde.



Pais se negam a participar de pesquisa



O principal desafio do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) é encontrar famílias dispostas a fornecer informações sobre as crianças que se encaixam nos critérios definidos pela pesquisa. Em seis dias de trabalho em Contagem, na região metropolitana, a pesquisadora Lívia Cristina Guimarães só conseguiu entrar em quatro casas.



?Alguns pais se recusam participar quando ficam sabendo da coleta (de sangue). Eles parecem ter medo de alguma coisa, embora a gente esclareça que o estudo é para saber a situação (nutricional) das crianças do país?, relata Lívia, que anda uniformizada e carrega um crachá que a identifica como pesquisadora.



A participação no estudo é voluntária e, segundo a assessoria de imprensa do Enani, os dados informados são sigilosos e, em hipótese alguma, os nomes das crianças ou dos seus responsáveis serão identificados.