O liberalismo foi pro brejo

A atual gestão só é liberal na economia da boca para fora

A decisão do governo federal de interferir nos preços do diesel, impedindo um aumento e passando por cima dos critérios técnicos que o determinam, mostra que a atual gestão só é liberal na economia da boca para fora. A interferência orquestrada pelo presidente Jair Bolsonaro na Petrobras jogou um balde de água fria na euforia do mercado com o anúncio, um dia antes, das tratativas para garantir a independência do Banco Central. Além disso, desmoralizou o presidente da companhia, Roberto Castello Branco, que havia prometido que haveria liberdade para a decisão relativa aos preços, protegendo os investidores que detêm ações da Petrobras.

Não é a primeira vez que Bolsonaro demonstra que não tem pensamento liberal, ao contrário do que pensaram muitos adeptos dessa corrente que acabaram seduzidos pelo discurso de campanha. O caso da compra de bananas do Equador já tinha dado um aviso. Posições históricas de Bolsonaro também.

No caso específico da interferência na Petrobras causou preocupação maior por conta da ameaça ao patrimônio da companhia, que sofreu do mesmo mal no governo petista. Sabe-se que o maior efeito financeiro na Petrobras durante aqueles tempos foi muito mais a interferência em sua política do que efetivamente a corrupção, que inegavelmente também trouxe estragos violentos.

Bolsonaro, porém, decidiu ignorar o risco ao perceber que uma greve de caminhoneiros se aproxima. Mostrou que o governo, nesse ponto, parece muito mais com o de Dilma Rousseff do que com o de Michel Temer, que resolveu pagar para ver até as últimas consequências e acabou se vendo em um problema enorme quando as estradas foram fechadas.

Há também um segundo motivo de preocupação no mercado: a possibilidade de que o discurso de privatização de determinadas subsidiárias da companhia também seja suplantado pela política fácil da interferência. Isso derrubou as ações da Petrobras, fez a companhia perder mais de R$ 30 bilhões em valor de mercado em um único dia e, consequentemente, jogou para baixo a Bolsa de Valores de São Paulo.

Há ainda uma análise política que pode ser feita da decisão. Bolsonaro já não confia tanto mais em sua capacidade de tomar posições impopulares ? ou se abster de populismos ? com apoio de um eleitorado fiel. Ele já busca o caminho da política fácil com mais frequência ao perceber que as pesquisas de opinião mostram uma queda consistente de seus índices.

Assim, atira para todos os lados sem muito critério, propondo a retirada de radares de rodovias, a ampliação do tempo e da possibilidade de infrações na carteira de motorista, um virtual 13º para o Bolsa Família e até medidas banais como a vedação a pronomes de tratamento arcaicos. Mostra, assim, fragilidade com pouco mais de cem dias de governo.

O que ainda segura a economia brasileira, apesar de todos os sinais erráticos do governo, é o fato de que há no mercado a confiança de que alguma reforma da Previdência sairá neste ano. Se não sair nenhuma, aí que a vaca vai mesmo pro brejo, como foi o liberalismo do presidente.