Coordenador do Detran foi exonerado do cargo após denúncia de fraude

A Polícia Civil informou, ainda, que não foi decidido qual autoridade policial será designada para substituir Cláudio Utsch na COP

Suspeita de cobrança de propinas para liberação de documentos de veículos e outras irregularidades levaram a Polícia Civil de Minas a exonerar o delegado-geral Cláudio Freitas Utsch Moreira do cargo de Coordenador de Operações Policiais (COP/Detran MG). De acordo com a Polícia Civil, a decisão foi deliberada e fundamentada por unanimidade pelo Órgão Especial do Conselho Superior da corporação, em razão da circulação de áudios com indicativos de possíveis irregularidades reveladas na coordenação do COP.

A reportagem de O Tempo teve acesso a dois áudios. Neles, o delegado conversa por telefone com um homem que o tempo todo ele chama de ?Muxiba?, sempre usando códigos e gírias em suas mensagens.

?Ela faz o disparo e você vai caladinho e conversa com a J.*e com o R.* De vez em quando, você dá uma beirada para o R. e, de vez em quando, dá uma beirada para a J., que ela vai fazer. E aquele 60 ou 70 que você falou, vai fazer tudo também. Agora, as alfas, amanhã já estou fazendo levantamento. Amanhã, a Prodemge (Companhia de Tecnologia da Informação do Estado de Minas Gerais) vai informar todas e eu vou transferir tudo da Furtos de Veículos para cá. Na hora que eu tiver transferido tudo para cá, nós vamos fazer tudo, tá? Já estou fazendo os levantamentos?, diz a gravação, que seria a voz do delegado Utsch.

Impedimento

Em uma terceira gravação, uma mulher conversa com um homem. ?Estou precisando baixar impedimento de carro antigo?, diz a mulher. ?E eu sei que só o doutor Cláudio Utsch que baixa e você?, completa a mulher, querendo saber quanto o delegado está cobrando. O homem responde: ?Cobra R$ 2,5 mil?. E completa. ?E eu estou cobrando do povo R$ 4 mil, R$ 5 mil?, disse ele, que pede uma foto do carro e um comprovante de endereço para baixar o impedimento. Explica que não precisa ser o endereço de registro do carro. ?A maioria desses carros é com endereço falso?, reforça o homem, dando outras orientações.

Na gravação, o homem diz que ?o doutor? só quer ganhar dinheiro. ?Ele quer baixar os impedimentos e pronto! Dinheiro ele ganha demais. É um cara muito esperto?, afirma o homem na gravação. ?Inclusive, ele falou que é nem para eu ir à COP. Falou que era para eu entregar no caminho, que é vizinho, né??, comentou.

A mulher continua o diálogo: ?E eu fiquei sabendo que ele estava cobrando R$ 10 mil?, disse ela. E o homem completa: ?No começo estava?. E a mulher reagiu. ?Nossa mãe! Eu quase caí para trás.?

Apuração

?O chefe da Polícia Civil, ao tomar conhecimento do fato, determinou à Corregedoria-Geral de Polícia Civil a imediata apuração dos fatos visando apurar a veracidade dos áudios, individualização da autoria e das condutas irregulares mencionadas nos áudios?, informou a Polícia Civil, por meio de nota.

Ainda de acordo com a corporação, ?a Polícia Civil reafirma seu compromisso institucional de promover a devida apuração da grave denúncia, pois suas ações e atos sempre são pautados nos princípios da legalidade, moralidade, oficialidade e publicidade, não coadunando com nenhum tipo de desvio de conduta de seus servidores.?

A Polícia Civil informou, ainda, que não foi decidido qual autoridade policial será designada para substituir Cláudio Utsch na COP.

A exoneração do delegado foi publicada na edição desta quinta-feira do Minas Gerais, órgão oficial do estado. Na mesma publicação, é anunciada a transferência de Cláudio Utsch para prestar serviços na Divisão de Operações de Telecomunicações (Cepolc). A reportagem procurou pelo delegado e não conseguiu localizá-lo. A informação do Detran-MG é que hoje ele não compareceu ao departamento.

Processo administrativo

A Polícia Civil esclareceu que somente depois de concluído o processo administrativo, instaurado pela Corregedoria, é que o delegado Utsch poderá, ou não, ser exonerado da corporação. Por enquanto, ele foi apenas exonerado do cargo de coordenador da COP e vai continuar exercendo suas funções como delegado na Divisão de Operações de Telecomunicações. ?A Corregedoria da Polícia Civil vai analisar as provas e, no final do procedimento, decidir se exonera o delegado ou se ele continua na instituição?, informou a Polícia Civil.

*J. e R. Nomes omitidos