Carta a Marielle Franco

Uma pergunta não foi respondida: quem mandou matar?

Quando chegou a notícia da sua morte, há um ano, foi o maior dos baques, a mais dura das realidades. Mais uma de nós tombava, mais um corpo negro estendido no chão. Mulher negra, favelada, que superou todos os obstáculos, que sabemos serem muitos, para estar lá (para estar aqui), representando outras milhares de mulheres negras, de pessoas pobres, de pessoas oprimidas de todas as formas. ?Ela me representava! Ela me representa!? A sensação era a de que tombávamos junto, como sempre sentimos, você sabe, quando irmãs e irmãos padecem diariamente. ?A carne mais barata??. Com o agravante de que eles mataram uma representante eleita, uma de nós que, contra tudo e todos, ocupava um espaço de poder, num atentado ao Estado democrático de direito, num aviso para não ousarmos sair da senzala.

Incrédulas, angustiadas, com medo e raiva, fomos para as ruas, gritamos por você, ?Marielle, presente!?, dissemos à exaustão, e você se presentificou. Sua força, sua trajetória, seu legado, sua luta, seu compromisso foram maiores do que a violência, e em seu nome transformamos o luto em luta, e viramos milhares de Marielles, mostramos para aqueles que tentaram silenciá-la que, antes pelo contrário, sua voz seria amplificada, ganharia o mundo. E você está conosco em cada ato público, nas falas em plenário, nas entrevistas, nos artigos, nas placas que carregamos, nos muros que grafitamos, nos desfiles do Carnaval, nas imagens que projetamos, nas músicas, nas poesias. Por você, nem um minuto de silêncio, a vida toda de luta.

Um pouco antes do seu assassinato, quando nos encontramos naquele primeiro Ocupa Política, em dezembro de 2017, naqueles dias intensos de trocas e utopias vividos na ocupação Carolina Maria de Jesus, a situação do país já era terrível. Pois bem, sentimos dizer que piorou. Vivemos tempos ainda mais sombrios, ainda mais distópicos. Sua morte foi um marco nas tentativas de silenciamento, intimidação e aniquilamento das ativistas e dos ativistas dos direitos humanos no país. O contexto, que nunca foi favorável, é extremamente perigoso para quem luta contra violações e por melhores condições de vida para o povo. Contexto que vem sendo potencializado pelos discursos de ódio, pelo desmonte das políticas de proteção aos defensores e pela ação das milícias também virtuais. 

Nessa terça-feira, dia 12 de março, a polícia do Rio de Janeiro prendeu dois suspeitos de serem os autores do seu assassinato e do de Anderson Gomes. No entanto, são muitas as perguntas que ainda não foram respondidas: quem mandou matar Marielle? O assassinato contou com a participação de agentes do Estado e das forças de segurança do Rio de Janeiro? Existe um grupo organizado atuando para atrapalhar as investigações? Os suspeitos presos são ligados ao grupo Escritório do Crime, formado por policiais e ex-policiais e especializado em execuções por encomenda? Onde está Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope e miliciano, acusado de chefiar o Escritório do Crime? Qual a relação de Flávio Bolsonaro com Adriano, cuja mãe e esposa trabalharam no gabinete do então deputado estadual? Por que a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, depositou R$ 4.600 na conta de Fabrício Queiroz? Existe relação da família Bolsonaro com as milícias fluminenses? De onde partem as fake news que ligam Marielle ao tráfico de drogas?

Em meio a tanto horror, no entanto, também temos boas notícias. Você deu urgência às nossas demandas históricas. Você nos deu força e coragem. Em 2018, tivemos um grande número de candidatas negras, e várias de nós fomos eleitas num movimento que está apenas começando, porque não vai retroceder. Somos sementes. Você, irmã, não será interrompida.