Vida dedicada aos dons da arte

Primeira mulher a frequentar uma redação de jornal em BH, Célia Laborne estreia na poesia aos 93 anos

O diploma do curso prático de jornalismo que Célia Laborne recebeu no dia 2 de fevereiro de 1960 traz uma curiosidade reveladora: antes do nome da formanda consta uma abreviação para a palavra ?senhor?. A forma de tratamento no masculino evidencia o pioneirismo da entrevistada. ?No dia do vestibular, eu nem reparei que só entravam rapazes na sala. Eu era a única mulher?, conta a jornalista.

A procura pelo curso foi tanta que o processo seletivo teve que ser realizado no Colégio Estadual Central, que tinha uma sala maior. Célia ficou com uma das 60 vagas oferecidas pelo jornal ?O Diário? e foi, inclusive, escolhida para oradora da turma. ?Meu pai ficou tremendo e disse: ?Tu vistes que vais trabalhar num lugar que só tem rapazes??. Falei: ?Sim, e eles vão me respeitar??, recorda Célia.

Era o começo da trajetória da ?primeira mulher a frequentar uma redação de jornal em Belo Horizonte?, e que, agora, aos 93 anos (completa 94 no próximo dia 16 de março), se permite uma nova estreia. Ela acaba de lançar ?Rota de Sonhos?, o primeiro livro de poesias, e admite que não escapou do famoso friozinho na barriga. ?Nunca fui medrosa, sempre encarei, mas fiquei nervosa. Me alimentei bem e fiz tudo direitinho para ficar firme, porque não queria lançar um livro póstumo?, brinca.

Os quase cem poemas selecionados foram escritos em diferentes fases da vida pela autora, que revisou cada um deles para a publicação. ?A maioria eu refiz. Por exemplo, a palavra ?vagabundo? não fica bem, não pode entrar nas minhas poesias, então eu troquei por ?malandro?, que é mais leve?, observa.

Ela lembra que ?com 12 ou 13 anos já escrevia quadrinhas, quando a aula estava meio chata ou a professora faltava?. Além do humor que finaliza ?Sinfonia da Vizinhança? (?Um dia eu dano,/ e jogo uma bomba/ que tudo arromba/ que tudo arrasa/ ou mato a algazarra/ ou mudo de casa?), ainda comparecem fartas doses de sensibilidade. ?Com a angústia, o medo e a não aceitação desses sentimentos, eu fazia poesia, justamente para conseguir aceitar?, explica. ?Não gosto de nada para baixo, se o poema acabava triste, eu mudava o final e botava ele para cima?, ensina.

Aluna de Alberto da Veiga Guignard na pintura e de Elias Salomé no violão, Célia ?contesta? a informação de que nunca se casou e nem teve filhos. ?Casei com a minha profissão, os filhos estão na estante, e os netos na internet?, declara. O mais recente livro se junta a um currículo invejável. Em 1967, Célia aportou no mercado editorial com ?Luz Sobre o Mar?. Cinco anos depois, chegava ?O Quinto Lótus? (1972). ?Raízes Internas?; ?Vida Integral?; ?Serenidade?; ?Harmonia e Vida?; e ?Caminhos de Luz? completam a família literária. Em forma de crônicas e contos, os textos abordam uma das temáticas preferidas da artista, precursora ao falar sobre ioga, meditação, alimentação alternativa e filosofia oriental nos jornais.

?Quando comecei, os ocidentais não tinham essa mania de ?espiritualismo? ainda?, afirma. Durante mais de 15 anos, Célia assinou a coluna ?Vida Integral?. ?Eu queria trazer o Oriente para o Ocidente, principalmente os ensinamentos da China e da Índia?, afiança. Ela também escreveu uma coluna de moda e outra de arte, em que utilizava o pseudônimo ?Karina?. Em 2007, começou a escrever para O TEMPO. Inquieta por natureza, outros assuntos também não escapavam do radar.

?Teve uma época que só se falava no Pelé, e aí tive a ideia de perguntar a uma amiga se ela ia ao campo e encontrava outras moças, porque toda vida eu gostei de futebol e nunca fui ao campo, só ouvia pelo rádio?, diz ela, que é ?torcedora do Galo? e aproveita para cantar uma música aprendida na infância. ?Tome cuidado com esse galo pequenino/ Tome cuidado com esse galo garnizé/ Esse galo te pinica/ Esse galo finca o pé?. Aliás, o esporte foi parte importante na vida de Célia, que como nadadora do Minas Tênis Clube conquistou três medalhas. ?Tem gente com 70 anos que está barrigudo, e eu, com 90, não estou. É culpa da piscina?, diverte-se.



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