História de dor e resistência

?Parque Oeste?, de Fabiana Assis, acompanha a luta de uma mulher, vítima de uma desocupação violenta em Goiânia

Tiradentes. ?Parque Oeste?, documentário de Fabiana Assis, foi um dos filmes mais aplaudidos da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O longa, de Goiás, segue a trajetória de Eronilde Nascimento, vítima de uma ação violenta da polícia para desocupação de um terreno que o próprio governo anteriormente havia incentivado que fosse ocupado. O fato se deu em 2005, em Goiânia.

Depois de os 13 mil moradores construírem suas casas à base de empréstimos bancários para a compra de materiais, a ocupação Parque Oeste foi completamente esvaziada e destruída pela polícia, que deixou feridos, presos, torturados, desaparecidos e dois homens mortos. Um deles, Pedro, era marido de Eronilde, um homem engajado nas lutas sociais. ?Ele falava que já que a gente veio para esse mundo ruim, que fosse, pelo menos, para fazer história?.

Na tela, a câmera de Fabiana Assis não interfere no modo como Eronilde conta sua história de dor e de resistência. Mesmo nos momentos mais emotivos, as lentes filmam as reações dentro do limite de intimidade estabelecido com a personagem. Um exemplo disso é quando, ao contemplar os escombros do que um dia foi sua casa, sua horta e seu jardim, Eronilde esconde seu rosto para deixar caírem suas lágrimas e o que o público vê é exatamente isso. A câmera respeita muito esse momento que é dela.

?Parque Oeste? tem a linguagem do documentário clássico, mas segue um roteiro que faz o espectador ter uma experiência de ficção, com uma história que começa situando o espectador dentro do cotidiano de Eronilde. Logo depois, vem uma explosão de emoção, com as cenas da desocupação. A angústia atinge o público, mas logo Fabiana tira sua personagem da posição de dor para mostrá-la como uma agente transformadora de realidades.

?O único pedido de Eronilde foi que não a retratasse como vítima, com pena. Nem ela nem ninguém da comunidade. Ela nunca me falou isso diretamente, mas percebi nas falas dela?, lembra Fabiana. Eronilde também quis preservar seus filhos e seu companheiro do olhar da câmera. ?Tomei esse cuidado, pois já sofri ameaças. Essa decisão de fazer luta foi minha e uma coisa é o Estado chegar e me matar, outra coisa é fazer isso com um filho meu ou com meu companheiro?.

Eronilde é a heroína da história. Uma mulher que, após sofrer um trauma, coloca sua armadura e vai batalhar por um futuro melhor para seus filhos e para toda a sua comunidade. ?Costumo dizer que saí do luto e fui para a luta?, fala. Sua arma é o resgate constante da história da ocupação, da violência e da volta por cima, não somente junto ao bairro que nasceu a partir do Parque Oeste, mas junto às autoridades. Eronilde fiscaliza os serviços públicos oferecidos à comunidade, cobra as promessas feitas por políticos e ajuda a população a se mobilizar.

Depois de perder suas casas, os moradores foram viver em ginásios lotados em condições precárias de saúde. Por meio da mobilização e da organização comunitária que Eronilde ajudou a construir, as pessoas cobraram moradia do governo. A partir desta batalha, formou-se a comunidade de Real Conquista, que hoje já possui unidade de saúde, praças, projetos para escola de ensino médio e áreas cobertas de lazer. Tudo é fiscalizado todos os dias por Eronilde, que ainda organiza rodas de conversa e grupos de apoios à comunidade.

Eronilde diz que, nesses 14 anos, não houve um só dia em que ela não pensou no Parque Oeste e sabe que os acontecimentos não podem mesmo ser esquecidos. Ela sabe que a preservação da memória é um grande instrumento de luta. 

(*) A repórter viajou a convite do evento