Caminhos da América Latina

Mostra com nomes de 7 países foi montada a partir da coleção Ella Fontanals-Cisneros

Não é raro de se ouvir que o Brasil não é um país integrado à América Latina. Seja por não falarmos a mesma língua ou por quaisquer outros fatores, reza o senso comum que a influência de Estados Unidos e Europa sobre nós seria muito maior que a dos nossos vizinhos. Essa teoria, no entanto, não se confirma, por exemplo, no campo da arte. Sobretudo da arte abstrata geométrica, eixo a que se dedica a exposição ?Construções Sensíveis?, que pode ser vista até segunda, no CCBB.

A cubana Ania Rodríguez, curadora da mostra ao lado do também cubano Rodolfo de Athayde, ressalta que um de seus grandes méritos é justamente demonstrar que a produção brasileira tem forte interlocução com o que é feito nos demais países da América Latina. ?A Bienal de São Paulo, por exemplo, é um ponto de encontro não só de artistas europeus, ou onde se encontram as tendências dos Estados Unidos e da Europa, é também onde se encontram artistas latino-americanos. Existe esse diálogo intenso, que muitas vezes é visto a partir das correspondências que se estabelecem entre eles, da participação nas mesmas publicações e também, de modo mais sutil, em linhas criativas?, diz.

No percurso da exposição ? que traz 119 obras, de 59 autores, de sete países da América Latina, em uma variedade de suportes: pinturas, desenhos, esculturas, objetos, instalações, fotografias e vídeos ? isso fica evidente.

?É possível ver que existe um caminho fluido, uma construção histórica que coloca o Brasil em diálogo não só com tendências mundiais, do eixo hegemônico, mas também com seus pares regionais, artistas de outros locais do continente trazendo as mesmas preocupações, lidando com as mesmas questões da arte?, afirma Ania.

As obras de ?Construções Sensíveis? fazem parte do acervo de Ella Fontanals-Cisneros e sua Fundação de Arte Cisneros-Fontanals (Cifo, The Cisneros Fontanals Art Foundation). Nascida em Cuba e criada na Venezuela, a colecionadora se dedica à arte abstrata geométrica e concreta desde os anos 1970 e reúne mais de 2.600 obras, produzidas entre 1920 e 1982. Com a criação da fundação, em 2002, passou também a apoiar artistas latino-americanos, viabilizando tanto a produção artística quanto a realização de exposições.

O recorte dado pelos curadores foi especialmente pensado para o Brasil. ?O nosso desejo era aproveitar a sensibilidade que o público tem para a arte abstrata e geométrica, além da força que tem a arte contemporânea brasileira. Ao pensar a exposição, também decidimos homenagear a exposição ?Arte Agora III, América Latina: Geometria Sensível?, que em 1978 ocupou o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e fora destruída por conta de um trágico incêndio, que tentava mapear um panorama da arte latino-americana naquele momento a partir do tecido geométrico. Por isso, aliás, o nome ?Construções Sensíveis??, contextualiza a curadora.

Por isso, aliás, o incêndio que destruiu o importante acervo do Museu Nacional, no Rio, ter acontecido durante o período da mostra ? que, à altura, estava no CCBB do Rio ? a torna ainda mais contundente. ?Esses dois incêndios foram golpes duros e momentos tristes para o país, que eu espero que se convertam em reflexão sobre o espaço e a atenção que damos a cultura?, completa Ania.

Alguns destaques da exposição são trabalhos como o da venezuelana Gego (1912-1994), cujo foco é a arte óptica, cinética, feita a partir do destaque das sombras, assim como Jesús Rafael Soto (1923-2005) e Alejandro Otero (1921-1990), ícones da arte abstrata venezuelana. É também uma boa oportunidade de conhecer artistas cubanos, a quem nem sempre se tem fácil acesso no Brasil, como a centenária Carmen Herrera.

É de um artista cubano, aliás, a instalação o site specific ?Horizonte Inestable?. Formada pelo encaixe de placas modulares redondas e ovalares, a obra de Alexandre Arrechea propõe estabelecer uma interação com a arquitetura do espaço, sem deixar de lado referências formais presentes na mostra.

Serviço

?Construções Sensíveis?, até segunda (7), no CCBB (praça da Liberdade, 450, Funcionários, 3431-9400). Horário de visitação: De 9h às 21h. Gratuito.