Em busca do público perdido

Campanha de Popularização do Teatro e da Dança tenta se reinventar em meio ao crescimento do carnaval de BH

Havia, até o início dos anos 2000, uma galhofa que dizia que a pessoa poderia sair correndo nua pelo centro de Belo Horizonte durante o Carnaval tranquilamente que não seria vista por ninguém. A piada virou história, já que, desde 2010, o Carnaval de Belo Horizonte renasceu com uma força impressionante, atraindo um público crescente da cidade e de fora. Consequentemente, é difícil pensar em programa melhor para o auge do verão, nos meses de janeiro e fevereiro, do que acompanhar ensaios e blocos carnavalescos, certo? Errado.

Há 45 anos, a Campanha de Popularização do Teatro e Dança existe em Belo Horizonte como uma alternativa cultural para as férias do mineiros. Agora, na edição de 2019, a programação tenta se manter firme e forte na agenda da cidade, apesar da concorrência desleal da folia. ?Parte do público (do Carnaval) é também nosso público. Vários blocos já estão ensaiando, antes mesmo da virada. Felizmente, o Carnaval será mais tarde em 2019 (a terça-feira ?gorda? de Carnaval será dia 3 de março), e nossa programação acaba antes, no domingo pós-Banda Mole?, pontua Rômulo Duque, presidente do Sinparc e um dos coordenadores da Campanha, ao lado de Dílson Mayron.

Estima-se que em 2018, o público da campanha tenha caído pela metade se comparado ao ano anterior. Em 2017, foram cerca de 200 mil ingressos vendidos e, neste ano, pouco mais de 100 mil. Além de comemorar o Carnaval tardio em 2019, o Sinparc pensa em alternativas para aumentar o público da edição de 2019. ?Queremos ampliar a participação do teatro de pesquisa?, destaca Duque. Somada a essa participação, o Sinparc recupera o posto de venda de ingressos antecipados, no tradicional Mercado das Flores, e oferece venda dos ingressos sem taxa pela internet. Outra novidade serão as três faixas de preços dos ingressos antecipados: R$ 10, R$ 15 e R$ 18. ?Nossa expectativa é bem melhor para o próximo ano. É uma aposta para tentar atrair mais gente, um público mais diverso. Nossa expectativa é chegar aos 150 mil, 180 mil espectadores na próxima campanha?, destaca o coordenador.

Para Beto Placides, produtor associado ao Sinparc, é inegável que o crescimento do Carnaval impactou o público da Campanha, porém ele entende que a cidade tenha fôlego para aguentar as duas coisas. ?Como a Campanha existe há 45 anos, ele já conviveu com Carnavais gigantes. É bom para a cidade ter as duas coisas. A gente tem que achar uma forma de as duas caminharem juntas. O público vai também entendendo que existem mais possibilidades. Não podemos perder de vista a formação de nosso público?, pondera.

Para Ilvio Amaral, produtor e ator do blockbuster campeão de público da Campanha de Popularização ?Acredite! Um Espírito Baixou em Mim?, é preciso pensar nos tempos que vivemos hoje e na incapacidade do teatro para falar com um novo público. ?Temos que pensar em que atitudes tomar para rumos outros do teatro. Não sei se nossos trabalhos estão ficando antigos, se eles não estão dialogando com o público, mas precisamos pesquisar por que caminhos queremos levar nosso teatro. Esse afastamento (do público) não é de agora, é de muito tempo?, avalia Amaral. ?Acho que tem poucas coisas novas na campanha. Ela vai ser morna?, completa, menos otimista. Contraditoriamente ou não, Amaral estará em cena novamente com ?Acredite! Um Espírito Baixou em Mim?, que se apresentará na próxima edição pelo 21º ano seguido.

 



Aposta em outras linguagens e formatos



Há alguns anos, a Campanha explora outras possibilidades em sua programação, como oficinas, ciclos formativos e de debates. Também oferece peças em espaços alternativos, na rua e em mais regionais de Belo Horizonte (não apenas na Centro-Sul) e no interior do Estado.

Em 2019, a programação especial foi batizada de ?Campanha Mostra? e tenta dialogar com outras vertentes do teatro produzido na cidade. ?Temos uma mostra com 18 espetáculos. É um recorte bem significativo para falar do humano, de resistência. Com o objetivo de dar luz e visibilidade a temas que o público da campanha não tinha tanto o hábito de acompanhar?, destaca Beto Placides, produtor responsável pela ?Campanha Mostra?. Na programação específica se apresentam espetáculos solo, como ?Orlando?, ?Peixes? e ?O Importado? e também ?Projeto Maravilhas?, com temática LGBT.

Temporadas?

O presidente do Sinparc, Rômulo Duque aponta que as temporadas de espetáculos nos teatros da cidade diminuíram. ?Mesmo com nossa estrada, a produção local está um caos. Temos dificuldades enormes. Salvo os projetos que estão circulando pelo Sesc e pelo CCBB, Belo Horizonte perdeu suas temporadas ?, pontua. Ele reclama dos editais de ocupação dos teatros públicos da cidade, que oferecem pautas curtas demais. Segundo ele, o Sinparc prepara um seminário para discutir detidamente o assunto.