Defesa de esfaqueador de Bolsonaro não revela à PF quem a contratou

A identidade do patrocinador da defesa de Adélio é mantida em sigilo por exigência do próprio contratante

Em depoimentos à Polícia Federal na última quinta-feira, advogados de Adélio Bispo de Oliveira, autor da facada em Jair Bolsonaro (PSL) durante a campanha eleitoral em setembro, se recusaram a revelar quem é o responsável por sua contratação. Pedro Augusto de Lima Felipe e Possa e Fernando Costa Oliveira Magalhães foram ouvidos pela PF na unidade da corporação em Juiz de Fora. Segundo Pedro Augusto Possa, a identidade do patrocinador da defesa de Adélio é mantida em sigilo por exigência do próprio contratante, mas até hoje o advogado não sabe dizer a real identidade da pessoa. Ele também apontou que Zanone Manuel de Oliveira Júnior, principal jurista do grupo que assiste Adélio Bispo, disse que outras pessoas ainda não identificadas se apresentaram para também ajudar financeiramente a condução da defesa do criminoso. ?O advogado Zanone teria dito que, da mesma forma que algumas pessoas o ameaçaram, outras se ofereceram para ajudar, inclusive financeiramente, na defesa?, mostra trecho do depoimento. Desde a prisão de Adélio, os advogados que defendem o autor do ataque a Bolsonaro mudaram a versão sobre o patrocinador da defesa por algumas vezes. Inicialmente, a equipe falava em ajuda paga por um grupo religioso de Montes Claros. Depois, afirmaram que se tratava de uma ajuda filantrópica patrocinada por um homem. Agora, o argumento é que utilizam o processo como ?estratégia de marketing?.  À PF, Pedro Augusto Possa afirmou que, em seu primeiro contato com Adélio, no dia do atentado em Juiz de Fora, o criminoso chegou a questionar se o defensor era do Estado ou particular. ?Adélio Bispo perguntou se era por conta do Estado ou se seria particular, pois não teria condições de pagar, e o declarante esclareceu que a pessoa que o contratou teria acertado o valor dos honorários com o advogado Zanone. O advogado diz ter dito a Adélio que quem estava pagando os honorários era uma pessoa que queria ajudá-lo, não tendo mencionado nome?, mostra outro trecho do depoimento de Possa.  Já o advogado Fernando Costa Oliveira Magalhães contou, em um primeiro momento, que Zanone o informou de que o contratante da defesa ?teria frequentado a mesma igreja que Adélio?.  Durante o depoimento, Pedro Augusto Possa afirmou que, na primeira conversa que teve com o advogado Zanone Júnior, no dia do atentado, o jurista lhe disse que arcaria com todas as despesas do caso, ?sendo que já havia recebido uma entrada da parcela dos honorários contratados?. ?O pagamento dessa primeira parcela de honorários foi feito no dia ou nos dias seguintes aos fatos?, contou. Até o momento, Possa diz ter recebido cerca de R$ 2.800 pelos serviços.  Questionado pela PF sobre o custo médio da atuação de defesa em um caso como esse, o advogado Fernando Magalhães disse acreditar que cobraria ?algo em torno de R$ 200 mil?, mas ressaltou que ?o valor pode diminuir drasticamente, em razão dos ganhos provenientes da exposição midiática?. O advogado Zanone Júnior também foi convocado para prestar depoimento, entretanto justificou que estaria em viagem em Foz do Iguaçu na data. Procurado pela reportagem, o jurista disse que não iria comentar declarações relativas às contratações, devido à repercussão que, segundo ele ?se transformaram em uma festa?. Ex-estagiário Ex-estagiário no escritório de Zanone Júnior, o advogado Pedro Augusto Possa, 28, disse ter recebido um telefonema de Zanone por volta das 17h do dia do atentado, quando este o convidou a participar do caso. Ele foi para Juiz de Fora e foi o primeiro defensor a se encontrar com Adélio.  Quando Adélio chegou à delegacia, Possa já se encontrava lá. O criminoso recusou ser atendido pelo jurista. Ele tentou convencer Adélio de que havia sido enviado pela mãe do autor da facada, mas Adélio riu: a parente faleceu em 2012. No depoimento, Possa negou que tenha citado a mãe de Adélio.  Jurista diz ter ?bom conceito? no PCC Em outubro, O TEMPO revelou que a principal linha de investigação da Polícia Federal acerca de Adélio Bispo mostrava indícios de ligação entre o PCC, maior facção criminosa do país, e o autor da facada no presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). O inquérito 503/2018 da PF, que apura se Adélio foi ou está sendo ajudado, mostra que alguns dos advogados do criminoso já atuaram em casos de membros do PCC. No depoimento dado à PF na semana passada, o advogado Fernando Magalhães confirmou já ter defendido criminosos da organização no passado, mas minimizou a questão. Ele disse, ainda, ter conseguido um ?bom conceito? entre os presos da grupo por conta de sua atuação nos casos. ?Os contratos são individualizados, ou seja, são celebrados entre o advogado e o investigado, e não entre advogado e facção criminosa ou partido político, por exemplo. Eventualmente, advogou para indivíduos ditos pertencentes ao PCC, alcançando entre os presos um bom conceito como advogado?, mostra trecho do depoimento dado à PF. Magalhães defendeu, nos últimos anos, pelo menos três membros do PCC que foram condenados em Minas Gerais. O advogado também se recusou, ainda, a fornecer um extrato contendo os registros de ligações referentes à data do atentado contra Jair Bolsonaro, no dia 6 de setembro, por ?cautela em relação a sua vida pessoal e sua atuação profissional? Filiação Questionado se já teve algum tipo de envolvimento com partidos, Magalhães revelou ser filiado ao Partido Novo e que sua atuação não possui nenhum tipo de vínculo a organizações ou siglas.