'Máfia mineira' é apontada como responsável por chacina de Tumiritinga em 2012

Grupo é suspeito de promover assassinatos de desafetos por 20 anos no Vale do Rio Doce

Empresários, políticos, fazendeiros, agentes das forças públicas de segurança e pessoas de grande influência numa região, seja pelo poder político ou econômico, se unem e formam um conselho deliberativo. Nele, decidem como e quando vão resolver, na base da morte, os problemas que os afligem. Abrem mão do poder público para fazer justiça própria, a seu modo. Parece até roteiro de filme, mas é história real de um grupo que ditou “leis” e promoveu uma série de homicídios nos últimos 20 anos no Leste de Minas. Ontem, uma grande operação, batizada de “La Famiglia”, em alusão à origem italiana da máfia, resultou na prisão de 21 pessoas. Seis outras estão foragidas. Entre os crimes, está uma lista longa e diversa, que inclui até assassinato de herdeiro por briga de terra. A chacina ocorrida em 2012 na cidade de Tumiritinga, no Vale do Rio Doce, também é relacionada ao grupo. Na ocasião, um vereador e outras quatro pessoas foram assassinadas.

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e as Polícias Civil e Militar tinham em mãos 42 mandados de prisão contra 27 alvos para serem cumpridos em Minas Gerais, em outros três estados (Bahia, Ceará e Maranhão) e também fora do Brasil. A subcoordenadora do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Governador Valares e Teófilo Otoni, Ingrid Veloso Soares do Val, explica que as investigações começaram há três anos, quando colegas da comarca vizinha de Conselheiro Pena pediram ajuda para elucidar homicídios que, ao que tudo indicava, eram cometidos por um mesmo grupo. Ao longo das apurações, percebeu-se que vários crimes que ocorriam naquela área eram semelhantes aos que se passavam em toda a região.

Todos os crimes tinham um dado em comum: eram cometidos mediante emboscada, pagamento (encomenda) ou recompensa. Nesses três anos, somente em Conselheiro Pena, o grupo foi responsável por pelo menos 18 mortes. “Começamos a fazer a relação dos homicídios. Tinha-se dificuldade de perceber isso antes, porque havia cautela de não repetir executores na mesma região e todo um aparato para evitar que se chegasse aos mandantes. As autoridades locais só viam aquela morte, não viam as outras. Se andassem 10 quilômetros, caiam para outra comarca, com outro juiz. Então, não era fácil associar ao grupo”, conta a promotora. “Como o Gaeco trabalha com várias instituições, pudemos contar com dados do MP, Polícia Militar e Civil, verificamos a atuação ao longo da região”, relata.

Desacertos comerciais, desavenças familiares, desavenças políticas, queima de arquivo, furtos de gado e de armas, infidelidade conjugal, agiotagem, cobrança de dívida e até casamento que não deu certo – qualquer pessoa que se torna um inconveniente é um alvo. A organização era conhecida como “família” ou “irmandade” e usava estratégias refinadas para eliminar seus desafetos. Não há um líder, por isso, a alusão à máfia, na qual um grupo impõe o poder.

O grupo se organizava para que não ocorressem flagrantes durante os crimes, inclusive observando escalas da Polícia Militar, organizava apoio logístico para monitoramento do entorno das cenas de crimes e acompanhava de perto as investigações, para obter informações privilegiadas. Além disso, a organização coagia vítimas e autoridades, eliminava testemunhas e se aproximava das autoridades para obter vantagens. “Esse modo de operação gera muito poder. Ninguém testemunha contra o grupo. Quem ousou fazer isso foi morto”, diz Ingrid.

Entre os presos, estão policiais civis e militares e agentes penitenciários, suspeitos de darem cobertura, executar crimes, fornecer informação sigilosa e armas. Havia uma estrutura muito bem montada, na qual eram definidos os grupos de executores, de agenciadores e de logística (quem providenciava veículos e armas, por exemplo). Alguns crimes foram praticados com disfarces.

Num dos casos, foi morto um herdeiro de uma propriedade menor que não quis vender suas terras. As investigações revelaram ainda a participação do grupo num crime que ficou conhecido como chacina de Tumiritinga e chocou o país em 7 de fevereiro de 2012. Cinco pessoas foram assassinadas sem chance de defesa numa fazenda que fica no distrito de Divino do Sul, em Tumiritinga, no Vale do Rio Doce. Entre os mortos estava o ex-vereador Jandir Caetano dos Santos, dois filhos dele e dois funcionários que cuidavam do terreno. Um terceiro filho do parlamentar e um garoto de 12 anos conseguiram fugir.

“Na época, o Ministério Público atuou, as pessoas ficaram presas preventivamente, mas foram absolvidas. Agora, descobrimos que houve atuação da organização criminosa para desviar o curso da investigação e impedir que chegássemos aos autores”, informa a promotora. O processo será reaberto.