Lacerda agora em voo solo

Marcio Lacerda usa crítica à inabilidade política como slogan contra seus velhos aliados

Entre dezenas de mãos disponíveis para receber um cumprimento, o então candidato a prefeito de Belo Horizonte acabou encontrando a de um manequim de vitrine pelo caminho. Sem perceber que se tratava de um boneco, estendeu a mão à estátua de cabelos lilás.

Naquele 6 de agosto de 2008, a imagem flagrada pelo fotógrafo Charles Silva Duarte era o símbolo de alguém que estreava na campanha sem o mínimo traquejo político para tal missão.

Dez anos depois, Marcio de Araujo Lacerda tem justamente na desvinculação com a imagem de um político tradicional a principal arma na disputa contra o governador Fernando Pimentel (PT) e o senador Antonio Anastasia (PSDB), ex-ocupante do posto. Não por acaso, é esse seu mote de campanha, principalmente após ver uma articulação nacional de petistas com seu próprio partido tentar tirá-lo da disputa.

Em uma década, porém, o velejador por hobby sofreu bastante com tormentas provocadas por palavras malcolocadas ou articulações frustradas. A cada uma delas, reforçava o carimbo de que era um técnico sem capacidade para construir acordos maiores e que não conseguiria se viabilizar sozinho. Nas palavras dos adversários: um poste inventado por Pimentel e Aécio Neves (PSDB).

As relações de Lacerda com a política, porém, remontam a um passado mais distante. Na luta contra a ditadura militar, ficou preso por quatro anos. Embora tenha militado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e pela Aliança Libertadora Nacional (ALN), costuma confidenciar que foi movido muito mais pelo instinto de desafio ao autoritarismo da época do que pelas ideologias de esquerda que pregava grande parte de seus companheiros.

O socialismo do nome de seu partido não guarda relação com as crenças do empresário que enriqueceu no puro capitalismo, com uma empresa de infraestrutura de telecomunicações.

A posição refratária ao comunismo não impede, porém, que Lacerda confidencie a admiração que tem por Vladimir Putin, um ex-agente da KGB que comanda hoje com mãos de ferro a Rússia, a principal das repúblicas ressurgidas após a queda da União Soviética.

A defesa da postura firme do líder russo guarda certa semelhança com as acusações feitas por seus adversários quando o hoje candidato ao governo comandou a Prefeitura de Belo Horizonte. Era taxado como alguém pouco afeito ao diálogo e inábil ao se comunicar com a imprensa e a população.

Lacerda alimentou seus críticos ao longo do tempo. Em 2012, ao dizer que devia ?ter sido um pouco mais babá dos cidadãos?, após um homem morrer ao cair de carro em um córrego da capital. Em 2014, ao afirmar que ?acidentes acontecem?, na ocasião da queda de um viaduto que ocasionou a morte de duas pessoas e deixou 23 feridas.

Sua postura gerou forte resistência de um grupo de esquerda que lançou o lema ?Fora Lacerda? e que ganhou força quando foi quebrada a aliança com o PT que lhe viabilizou na disputa de 2008. 

As imagens daquela campanha não deixam dúvida de quanto Aécio e Pimentel foram tidos como fundamentais para tornar Lacerda alguém suficientemente conhecido. Naquele momento, a surpreendente e inédita aliança PT/PSDB era apontada como o caminho para uma nova política, sem rancores ou disputas fratricidas.

Como se sabe, o arremedo de união entre os históricos antagonistas da política brasileira não passou disso. E Lacerda se separou do PT em quatro anos e do PSDB em outros quatro. Com isso, chegou às eleições de 2016 isolado quando tentou lançar sem sucesso o empresário Paulo Brant para a sua sucessão.

Após rejeitar uma aliança com o PSDB e ao ver Aécio e seus aliados fazerem evaporar qualquer chance de aliança que pudesse empurrar Brant à PBH, Lacerda abandonou a candidatura do apadrinhado. Ao unir-se a Délio Malheiros (PSD), seu vice que um dia disse estar ?com quem estivesse contra o Marcio?, ele apostava suas últimas fichas. Uma derrota fragorosa, como a que veio ao não conseguir sequer levar seu aliado ao segundo turno, era apontada como o fim da linha em seu futuro sonho de disputar o Palácio da Liberdade. Mas, quatro anos depois, o ex-prefeito renasceu como uma terceira via capaz de assustar rivais tradicionais em um momento de completa insatisfação com a classe que comanda o país.

 

1969



Lacerda é preso pelo regime militar e fica quatro anos detido. O período no cárcere custou-lhe o emprego e adiou a conclusão de um curso universitário que mais tarde foi retomado. O combatente da ditadura se reergueu como empresário do ramo de infraestrutura telefônica.

2008



Desconhecido da imensa maioria da população, o ex-secretário executivo do Ministério da Integração Nacional, com Ciro Gomes, e ex-secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico com Aécio, é lançado como candidato à Prefeitura de Belo Horizonte. Com o apoio de Aécio e Pimentel foi eleito e, apenas com o tucano ao seu lado, reeleito quatro anos depois.

2016



No último ano de seu mandato, ao deixar a prefeitura, Lacerda, já vislumbrando a futura disputa pelo governo de Minas, falhou por duas vezes ao tentar viabilizar seu sucessor. Primeiro, ao ver sua articulação em torno de Paulo Brant ser esvaziada. Depois, ao não conseguir levar ao segundo turno o vice Délio Malheiros, plano B ao fracasso de sua primeira opção ao cargo.