O casamento na visão de Albee

Eliane Giardini e Antônio Gonzalez chegam a BH a bordo da peça ?Peça do Casamento?, em cartaz até 3 de setembro

A admiração vem de largo tempo. Desde o período em que integrava, junto a Felipe Hirsch e outros atores, a Sutil Cia de Teatro, Guilherme Weber, 46, acalentava o desejo de montar um texto do norte-americano Edward Albee (1928-2016). O grupo curitibano, vale lembrar, tinha como um de seus pilares o foco na dramaturgia anglo-saxã ? no entanto, o sonho de Weber acabou não se realizando. Mais recentemente, quando o também diretor se viu diante do despontar informal de uma trilogia sobre o tema casamento (complementada pelas peças ?Os Realistas?, de Will Eno, e ?De Verdade?, de Tom Stoppard, todas da Quintal Produções, sendo a última inédita), veio o clarão: era, enfim, chegada a hora de trabalhar Albee. 

Mais precisamente, o texto ?Peça do Casamento?, que terá sua estreia nacional na capital mineira: o espetáculo cumpre temporada de 15 de agosto a 3 de setembro, no CCBB BH.

Em cena, Eliane Giardini e Antônio Gonzalez compõem um casal que, após 30 anos de casamento, está prestes a se separar. ?É um casal atravessando uma noite de conversas, em uma narrativa de memória, na qual os dois repassam muitas coisas do relacionamento. Mas é também uma metáfora aberta, por meio da qual o espectador pode fazer inúmeras leituras. E acho que uma delas é de que maneira a gente pode redesenhar convenções para buscar uma forma mais profunda de liberdade?, aponta Weber.

Neste caso se limitando apenas à direção, ele não esconde sua admiração por Eliane Giardini, com quem também já dividiu o palco. ?Aliás, parte da minha vontade de montar essa peça era justamente a vontade de reencontrá-la em cena?, relata Weber. ?E de promover o encontro dela com esse grande personagem feminino?, acrescenta.

Guilherme Weber conta que seu fascínio pela obra de Albee aconteceu a partir do momento em que travou contato com três textos: ?Quem Tem Medo de Virginia Woolf??, ?Delicado Equilíbrio? e ?Peça do Casamento?. Ao se propor a traduzir o último para a empreitada de agora, ele só lamenta que, no português, o título perca um pouco do jogo semântico do original ?Marriage Play?. ?Quando Albee a batiza, lança o sentido de que essa peça é também um jogo teatral sobre a convenção do casamento?.

No caso, um casamento à la anos 80. ?Branco, heterossexual?, adiciona Weber. ?Que, na verdade, é o grande clássico desse tipo de relacionamento, e que define o comportamento de todo o mundo ? até do próprio movimento gay, do feminista... Tudo isso, em algum momento, passa também por essa aliança de relacionamento que é o casamento?, analisa.

Weber entende que o casamento é um tema fetiche na trajetória de Albee. ?E este texto condensa todo o repertório de estilo do autor: os homens frágeis, as mulheres no registro de grandes personagens femininos, e a beleza dos diálogos?.

E se os elogios para Eliane Giardini foram pródigos, ele também não se furta a ressaltar o talento de Gonzalez. ?Estou me encontrando com ele profissionalmente pela primeira vez e estou surpreendido: é um ator instigante, original, com uma abordagem clássica ? no bom sentido da palavra?.

Além da direção, Guilherme Weber conta que segue em turnê com ?Os Realistas? (que já passou pela capital mineira). Não bastasse, acaba de voltar da Argentina, onde gravou um seriado, ?Submerso?, coprodução entre os dois países. E, no cinema, estará no filme de terror ?Marlon Brando, Whiskey, Zumbis e Outros Apocalipses?, de Paulo Biscaia.

Peça do Casamento

CCBB BH (Praça da Liberdade, 450). Estreia dia 15 (quarta), às 20h. Restante da temporada sempre de quinta a segunda, às 20h. Domingo, sessão extra às 17h. R$ 20 (inteira). Até 3/9.