Tensões diplomáticas entre nações rondam a reta final da Copa

Especialista acredita que relação entre a finalista e a anfitriã Rússia é profunda e pode se transformar em crise

Não só de futebol vive a Copa da Rússia. Uma tensão diplomática provocada por relações estremecidas entre dois participantes, Inglaterra e Croácia, e a anfitriã, eliminada nas oitavas de final justamente pelos croatas, ronda a reta final do torneio da Fifa, que se encerra no próximo domingo. Em confronto nesta quarta-feira, a Croácia derrotou a Inglaterra, por 2 a 1, e fará a final do torneio com a França, que despachou a Bélgica na terça-feira. Os ingleses enfrentam os belgas, no sábado, na disputa do terceiro lugar. Uma manifestação feita pelo zagueiro Damagoj Vida e o assistente-técnico Ognjen Vukojevic nas redes sociais, depois da vitória nos pênaltis da seleção croata, dedicando a classificação à Ucrânia, rival política da Rússia, elevou a temperatura entre as duas nações, que já ocupavam lados opostos em relação à Sérvia, aliada dos russos. A relação com os ingleses foi arranhada antes da Copa. Em março passado, o britânicos acusaram a Rússia pelo envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha Iulia, que residem na Inglaterra. O governo de Vladimir Putin negou envolvimento no caso, mas uma ferida foi aberta. A primeira consequência foi a expulsão de diplomatas pelos dois países. A primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, chegou a alertar os torcedores ingleses sobre a ?possibilidade de um sentimento antibritânico ou hostil? e para ?evitar comentários públicos sobre assuntos políticos? durante o torneio na Rússia. Foi por pouco que russos e ingleses não se encontraram nas semifinais da Copa, mas a eliminação da seleção anfitriã diante da Croácia, nas quartas de final, evitou o embate com a Inglaterra, que passou pela Suécia e se classificou entre as quatro semifinalistas. O professor do Departamento de Relações Internacionais da Puc Minas, Javier Alberto Vadell, acredita que os reflexos políticos serão minimizados por medidas diplomáticas dos países envolvidos. ?Não se separa futebol e política, mas o futebol tem uma lógica própria?, disse o especialista, em entrevista ao SuperFC. Javier Vadell disse que a rusga entre ingleses e russos não é tão grave a ponto de ser considerada uma crise diplomática. Caso contrário, poderia até ter ocorrido um boicote ao torneio na Rússia. ?Faltou interesse do governo (britânico) pela Copa por causa dessa questão diplomática, mas não é tão profundo quanto parece?, afirmou. ?Se fosse crise, haveria um boicote. Mas tensão existe?, acrescentou. Ameaça de crise Mas buraco é mais embaixo em relação à Croácia. As manifestações do zagueiro e do membro da comissão técnica da seleção, ambos advertidos pela Fifa, foram mais graves, de acordo com o professor da Puc Minas. ?É mais profundo porque atingiu questões diplomáticas?, observou Javier Vadell. ?Aos olhos da Rússia, foram mais graves as declarações dos croatas, e essa questão pode virar uma crise?, ponderou. A Federação Croata de Futebol não concordou com a decisão da Fifa, alegando que não houve manifestação de cunho político. "Lamento que alguns representantes da mídia tenham interpretado nossa mensagem desta maneira. Não foi algo político. Só o agradecimento ao país onde passamos grande parte de nossas carreiras. Não quisemos ofender ninguém", disse Vida, em nota divulgada pela entidade. O zagueiro croata, acusado de gravar um vídeo em homenagem à Ucrânia, foi vaiado durante a partida com a Inglaterra, nesta quarta-feira, disputada em Moscou, pelas semifinais. Apesar de se posicionar contra a Fifa, a Federação Croata admitiu que orientou jogadores e integrantes de sua delegação para ?que se abstenham no futuro de qualquer mensagem que posse ser interpretada politicamente?. Javier Vadell acredita numa postura diplomática dos países na final da Copa e na presença de Putin, que não tem comparecido aos jogos, no estádio. ?A diplomacia russa não é de improvisar. Eu acho que ele (Putin) vai (ao jogo)?, disse o especialista.